sexta-feira, 21 de outubro de 2011

MIGUEL MARTINS

4 – DA LITERATURA



Gosto de pessoas que não escondem as suas fragilidades. Não precisam de usá-las na lapela do casaco, é claro, mas que não as escondam se calharem em conversa. Fobias, egoísmos, incompetências, doenças psiquiátricas, mendicidades, etc., são o melhor que temos para nos dar. Porque o mais é falso ou não é particularmente nosso. O Pierce Brosnan e a Tyra Banks não existem; a nouvelle cuisine é uma cagada; o Fernando Mendes e o peixe frito são mesmo muito bons. Sou muito melhor escritor do que o Hemingway. Quase toda a gente é muito melhor escritor do que o Hemingway. Não percam tempo com o Hemingway se tiverem uma bola, alguns amigos e um jardim onde jogarem. Não percam uma oportunidade de suar. O suor é sempre bom, a menos que se sue por dinheiro. Fumem. Fumem muito. Os dentes castanhos são melhores do que os brancos. Melhor do que os dentes castanhos só não ter dentes nenhuns mas ter quem nos corte maçãs e queijo da ilha aos bocados pequeninos. Que se foda o Hemingway.


Lérias, Averno, Lisboa, 2011.

domingo, 16 de outubro de 2011

LUIS MANUEL GASPAR

[«SOUBE ENCONTRAR NO AREÃO A FLOR EM TRANSE.»]


«Soube encontrar no areão a flor em transe.»
e apontaste o ventre aberto da ondina:
carnagem crua te enquadrava, laminosa,
a face fria com a nuvem de falenas,

um relâmpago no estômago, e essa ombreira
pálida à mercê da lamparina; ovíparos
recados sob estacas, e tripas, e folhas
e escamas também. Engastado à tua voz,

«Toca-me os olhos com as pontas, sem a sombra
que de repente se enrolou entre os meus passos.
Vê, sob os círculos do peito, o peixe negro:
morde, puxa, rasga a pele do braço avesso»

E há tempo à justa pra empalhar outra corola,
o laço escuro a ecoar a trovoada


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

domingo, 9 de outubro de 2011

RENATA CORREIA BOTELHO

PALO SANTO


fendiam o castelo e o nosso palco, em madeira,
gotas temíveis, prontas a molhar de incerteza
a mala gasta do palhaço, o fato de trapezista
que se equilibrava a custo na solidão do cabide.

fizemos uma roda e uma chama lenta, como mandam
os mais fundos preceitos da magia, calámos
baixinho todas as vozes, deixámos aos pássaros
e ao palo santo a decisão suprema daquela noite.

nada sabia eu, até ali, da alma do fogo abrindo
caminho entre as intimações da chuva. e o céu
vergou-se, num sopro, a um rasgo de sol, que trago
nestes olhos entretanto regressados à borrasca.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/ Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

MARIANA PINTO DOS SANTOS

4.




Escreveste há tempos numa carta para ninguém «pensei que sempre estarias aí». Agora sabes que não há presenças perenes nem ausências definitivas. Basta folhear as páginas dos livros para escutar as conversas entre poetas, um diálogo tímido que se trava e acelera no excesso que não cabe em lado nenhum. Oferecem-se uns aos outros as mais brutais ou gentis palavras. Palavras velhas como o mundo, tantas vezes ditas e escritas que dele se separaram há muito, mas às vezes voltam para o saudar. Perdem-se, encontram-se e perdem-se e encontram-se. E assim por diante.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/ Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

sábado, 1 de outubro de 2011

RUI PIRES CABRAL

O CABO DOS DIAMANTES VISTO DE POINT-À-PIZEAU


para o Luis Manuel Gaspar


A água-forte com jangadas
surge aqui reproduzida
por gentileza dos Irmãos
Maggs, de Londres:
....................as cores
já desbotaram e há pontos
de acidez na margem esquerda –
mas como lhes agradeço
a gentileza!
..........Os inimagináveis
Irmãos Maggs, de Londres:
quem eram, de que morreram
(seriam mais que dois)?
....................O tema
tem a urgência de um apelo
à evasão – é como sair à noite
num país desconhecido,
....................tanto mais
que as circunstâncias, nos passeios
junto ao rio, atiçam o tédio
nativo sob o chuvisco
de Março
..........e nada se compara
em mistério e sedução
ao Cabo dos Diamantes
visto de Point-à-Pizeau.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

INÊS DIAS

PEQUENOS CRIMES ENTRE AMIGOS


Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo –
com cuidado, por favor –
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ROSA ALICE BRANCO

AS VESPAS DE PALERMO


A virgem sorri-me com boca de mosaico,
os meus olhos mergulham nos arabescos do chão,
geometria do sol descendo as ruas de Palermo.
Insectos aceleram bzz bzz até nas passadeiras
e Cristo impávido na igreja em frente.
Mas Cristo não atravessa as ruas:
está um pouco acima da cruz, um pouco antes.
Os anjos abandonam a escuridão do templo.
As vespas parecem pirilampos
e bzz bzz são as asas dos anjos
conversando sobre os turistas do dia.
O bzz bzz das vespas cá em baixo é de encontros
na noite de Palermo. Assentos tão etéreos
com um copo na mão, a outra na cintura
e nos punhos das vespas, vespas, vespas
atordoando o riso, o beijo passageiro.
E já os anjos estão a postos na sua nudez redonda
enquanto as vespas dormem um sono de alcatrão.
A ceia prepara-se. Cristo não nega o seu lugar à mesa.
Entre um bzz bzz e outro, olho-te no b barroco ou bizantino
e não aceito a tua morte, tu que atravessas acima das vespas,
vespas, vespas, acima do Etna que sobe ao céu
enquanto dentro se cozinham os infernos: a tua ceia,
os restos que deixaste para nós no microondas.


Gado do Senhor, & etc, Lisboa, 2011.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

VASCO GRAÇA MOURA

ELEGIA BREVE À POESIA


fugitivo passar pela retina,
no virar de uma esquina ou de um silêncio,
a tua ausência é este ensombramento,

porém que a despedida seja breve
e que voltes com um relâmpago, um
desvendar-se do mundo entrecortando

dobras desamparadas do real.
e eu pergunto: que vozes do crepúsculo
se apagavam então? talvez o vento

agitasse tristezas na folhagem,
e esse fosse o frémito dos seus
melancólicos sinais rumorejando,

ou talvez fosse a cama de hospital
e o branco desolado das paredes
e a mudez de estranhos aparelhos,

ou talvez fosse o próprio esquecimento
de que irias voltar, ou resvalar
numa lenta passagem de tercetos.


Relâmpago, n.º 27, Fundação Luís Miguel Nava, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A. M. PIRES CABRAL

RECADO AOS CORVOS


Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.

Deixai só a incombustível
memória das labaredas.


Aqui e agora assumir o Nordeste [de Como se Bosch tivesse enlouquecido], org. Isabel Alves e Hercília Agarez, Âncora Editora, Lisboa, 2011.

domingo, 11 de setembro de 2011

JORGE DE SOUSA BRAGA

SERMÃO DA MONTANHA


1.
Cho Oyo
Dhaulagiri
Evereste
Gasherbrum II
Gasherbrum I
Lhotse
Kangchenjunga
Sishma Pangma
K 2
Makalu
Broad Peak
Manaslu
Nanga Parbat
Annapurna


2.
Quando chegares ao cimo da montanha
continua a subir


Público, Lisboa, 10 de Setembro de 2011.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

FREDERICO LOURENÇO

ELEGIA


1.


Tempo de dança num vago compasso de bela toada
fecha solene a última festa do longo inverno.
Chove de novo na húmida noite gelada de março;
nada faria prever o perfume da música nova.

Vejo agora teu rosto no espelho da sala dourada;
luzem teus olhos ao brilho das velas nos lustres acesos,
quando de novo a orquestra entoa a música nova,
sempre que soa no brilho da sala a triste gavote.

Música minha alheia não soa às árvores altas:
ramos e folhas ondulam à chuva na escura montanha,
cantam por mim o que vejo ao ver-te no límpido espelho,
hoje que mais do que nunca rebrilham teus olhos brilhantes.

Pena seria portanto perdermos a última dança;
ambos sabemos que vêm vazios compassos de espera,
logo que raie daqui a minutos a pálida aurora,
ela que traz como sempre o ocaso dos nossos amores.

Relâmpago, n.º 27, Fundação Luís Miguel Nava, Lisboa, 2010.

domingo, 4 de setembro de 2011

MANUEL DE FREITAS

STABAT MATER


Benilde, ao balcão, reza de pé
a novena do Menino Jesus
de Praga. Alguém, que nunca
mais vi, tinha a mesma devoção
– e um mapa de heroína
a servir-lhe de braços.

Custa-me interromper a
novena para pedir, claro,
mais uma cerveja.
Tão diferentes modos de rezar,
debaixo do relógio que há vários anos
nos diz que ainda não são quatro.

Prevêem, na rádio, uma descida
da temperatura. É tudo o que
me importa saber.
Enquanto Benilde, ao balcão,
continua a rezar ao Menino Deus.

Fez-se silêncio. Tem
uma garrafa vazia ao lado.
Acendo um cigarro
em memória de Pergolesi
e escrevo, sem querer,
o primeiro poema do ano.


Juxta Crucem tecum stare, Alexandria, Lisboa, 2004.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

NUNO FÉLIX DA COSTA

A FADIGA DA INEVIDÊNCIA


Cansa-me escrever um poema e bem podia estar
a fazer outra coisa mais muscular ou libidinosa
mas uma parte da alma anseia por coisas indefinidas
quer o absoluto – medi-lo com gigantescos

números – Estes contêm o anulamento entre as propriedades
mais activas – Escrever um poema com músculos e libido
ou juntar estrelas avulsas desenhando as constelações
no firmamento são actividades da vontade

facultativas – mas escrever um poema sem estrelas
nem sonho nem libido nem a energia heróica
da sobrevivência é apenas escrever para tentar

que o poema seja escrito e contenha algo do silêncio
ou do que sobeja da frustração do absoluto se escapar
e deixar-nos a sua quase-evidência


Catálogo de soluções, Cortex Frontal, Lisboa, 2010.

domingo, 28 de agosto de 2011

MANUEL ANTÓNIO PINA

M., A ÚLTIMA PALAVRA


Entre restos de vida passada
refugiava-se o coração de cada um de nós no seu covil,
uma gota de sangue, pequeno vitral de reflexos coloridos,
na orelha de M., a pistola no chão perto da mão, ainda quente a pistola.

O que quer que tivesse acontecido
fora em sítios inacessíveis às notícias dos jornais
e aos flashes das máquinas fotográficas
voando agora como aves cegas à sua volta.

Um grande mutismo cobrira tudo
gelando os nossos passos e o que disséssemos
ainda antes de pronunciado;
percebia-se, de quem sempre quis ter a última palavra.

Não se percebia era a falta de uma explicação ou de um sinal
(ao menos um sinal justificar-se-ia dadas as circunstâncias),
apenas um botão do casaco mal abotoado,
provavelmente sugerindo alguma impaciência.


Público, Lisboa, 9 de Abril de 2011.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

GONÇALO M. TAVARES

RESULTADOS E INSTRUMENTOS



De um outro ponto de vista: utilizamos sempre uma régua para medir rectas e um transferidor para medir ângulos.

Experimenta trocar: a régua para medir ângulos e o transferidor para medir rectas.

Chegarás a resultados diferentes. Serão resultados falsos?

Eu não diria isso. Seria mais cauteloso. Diria que são resultados diferentes.


Breves notas sobre ciência, Relógio d'Água, Lisboa, 2006.

domingo, 21 de agosto de 2011

NUNO MOURA

[A ANITA]




A anita aprendeu a montar numa semana e depois foi a um concurso hípico e ganhou, a anita foi anita mamã e tomou conta do pantufa e do irmão pequenino e fez comida e lavou tudo e disse adeus aos pais da janela, a anita foi à quinta e mungiu a vaca, a anita foi ao supermercado pela 1.ª vez e comprou tudo para casa, a anita gosta de pizza e de crianças, a anita fazia tudo rápido e bem, a anita está pronta.


Calendário das dificuldades diárias, & etc, Lisboa, 2002.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

ALBERTO PIMENTA

[EU NÃO FAÇO SENÃO]


eu não faço senão
aquilo que é permitido
e está consagrado
na legislação fundamental da guerra
ou seja retaliar
pois se eu não os pusesse a mexer
mesmo sem pernas
enquanto trauteava
as velhas canções dos camaradas mortos
então eram eles que me fariam
o mesmo a mim
e eu não aprecio marchas fúnebres
nem bem garganteadas
por algum coro de qualidade
como o dos meninos órfãos de Viena
ou é Viana
para o caso
isso agora já nem altera nada


[...]

Reality show ou a alegoria das cavernas, Mia Soave, Lisboa, 2011.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

HERBERTO HELDER

[A ACERBA, FUNDA LÍNGUA PORTUGUESA]


a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso



Poemas portugueses [de A faca não corta o fogo], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, Porto, 2009.

sábado, 13 de agosto de 2011

MANUEL VAZ DE CARVALHO

1921-2011


domingo, 7 de agosto de 2011

GOLGONA ANGHEL

[ONTEM, EM CASA DE MADAME POMPIDOU]


Ontem, em casa de Madame Pompidou,
quando passei, levando para a ceia
sardinhas e bohémias,
estava sentado, conversando contigo,
por debaixo de um molho de velas cor-de-laranja,
um senhor ruivo, de testa alta,
que me seduziu de imediato,
talvez por lhe pressentir,
apesar de tão enterrado no cadeirão do Ikea,
um raro charme
ao mover-se com o plúmbeo peso das estátuas.

Quem era? Suponho que nos acaba de chegar
do fundo dos lagos da Noruega,
porque não recordo tê-lo ainda avistado na esquina dos
estudantes Erasmus, no Bairro Alto.
Porque é que não pedi uma breve introdução ao tema?
Nem sei. Talvez o requinte em retardar,
que fazia com que o marquês de La Fayette,
dirigindo-se para a flor do seu desejo,
tomasse séculos a chegar à hora H.
Sabe o que dava tanta pica à hora H,
nos tempos do rei Artur? Não sabe... Pois,
resultados de não lerem
Geoffroy de Monmouth (séc. XIII).

O facto é que depois desses momentos de contemplação
intermitente
voltei à perfeição da minha sardinha.
Na pátria de Alexandre Herculano
e no idioma de Gonçalo Dias,
misturava desajeitadamente
as rudes entranhas do peixe
com os finos olhares do senhor
como quem se atreve a misturar
foie gras com Brigitte Bardot.
Podia ter dito alguma coisa.
Podia, enfim, ter escrito um soneto.
Mas não foram estes floreados rimados
que mais prejudicaram o Dante aos olhos de Beatriz?
Não dizia a própria Laura que Petrarca podia ter tido acesso
às suas graças se não falasse demais?
Sem dúvida, tudo isto não está escrito
na obra de Petrarca,
mas o Dom Quixote insiste em confirmar a história.

Tudo tende à efabulação no nosso país
e é com estes elementos alegres
que nós procuramos,
se não restaurar o império de África,
ao menos celebrar os santos populares.


Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, Lisboa, 2011.

domingo, 31 de julho de 2011

FERNANDO GUIMARÃES

VENTO


Estamos ainda longe. Quase nada se pode encontrar. Talvez
nos tenham prometido qualquer coisa, mas não o sabemos. À volta
ficam algumas casas abandonadas, estes arbustos, um pouco de areia
espalhada para que os nossos passos tenham apenas um destino
que se desconhece. Vinha o silêncio ao nosso encontro e o que existe
principia a ganhar uma fragilidade que se torna maior. Tudo
há-de ser tão leve agora para nós como um reflexo que chega
dessa ausência. Caminharemos um pouco mais. De novo
procuramos uma recordação, a passagem do vento, o seu olhar.


As raízes diferentes, Relógio d’Água, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[DEPOIS HÁ UNS TIPOS SIMPÁTICOS]


Depois há uns tipos simpáticos
que se põem assim como que de lado,
hieroglificamente a assistir
ao espectáculo do espectáculo

dos sacrifícios, e bolsam com a bolsa
cheia de conjecturas e trans-
versalidades para a benemerência
do raquítico pensamento nacional.


Averbamento, & etc, Lisboa, 2011.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

RUI CAEIRO

[O NOSSO AMOR NÃO É COISA QUE SE APRESENTE]


O nosso amor não é coisa que se apresente
a uma sociedade como esta cujas exigências
stop que é do nosso amor que se trata
o nosso amor cheira a folhas podres de Outono
e quanto a reverdecer vou ali e já venho
o nosso amor está de rastos e como há-de ir
o nosso amor coelho esfolado o nosso amor
disco partido o nosso amor rato morto o nosso
amor ovo cozido ovo estrelado porque isso tanto faz
o nosso amor osso esburgado o nosso amor
brinquedo que um menino esventrou e não sabe
agora como é que vai poder consertar
o nosso amor chá de tília choque
anafilático paragem cardíaca
mas nosso amor apesar de ou nosso amor
tudo e mais alguma coisa o nosso amor
cinco sentidos viste-o ouviste-o tocaste-o
cheiraste-o degustaste-o o nosso amor
seja ou não seja e esteja ou não esteja
ele é para já e largamente quanto basta


O quarto azul e outros poemas, Letra Livre, Lisboa, 2011.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

JORGE FALLORCA

[ARRUMO OS LIVROS]



Arrumo os livros; desfaço o saco e penduro a roupa nas costas das cadeiras. Um roupeiro é muito tempo.


Nem sempre a lápis, Tea For One, Lisboa, 2011.

domingo, 17 de julho de 2011

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

CRÓNICA


Uma gripe que se arrasta,
um jantar que ficou azedo,
uma lembrança por enganosa,
um empenho que não vale o que custa.
Para outra altura fica o resumo
dos milagres, o relato dos prodígios,
a prova derradeira da falência dos humores.

Agora, mais do que antes, os artistas
têm pressa e o demiurgo acordou;
o espírito afundou-se nas águas.
Amanhã quem acordar cedo terá
mais tempo para se arrepender.


Telhados de Vidro, n.º 15, Averno, Lisboa, Junho de 2011.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

MANUEL DE FREITAS

MOTET POUR LES TRÉPASSÉS


Este poema seria teu, Inês,
se não fosse de ninguém.
Ao chegarmos de Lisboa,
depois da paragem ritual
no Café Lisbela — onde tudo
se compra e tudo se perde —,
vimos uma cadeira de rodas
à venda, uma motorizada
ao lado, uma igreja vazia
da qual certamente gostariam
Andrei Tarkovsky, Tonino
Guerra ou Ana Teresa Pereira.

A poucos metros dali, o meu pai
morria, tentava penosamente resistir
a uma hemorragia cerebral. Mas
isso, claro, ninguém precisa de saber.
Apenas tu, poema, que vieste de comboio
confirmar dia após dia que o Tejo
está onde sempre esteve: triste, azul, parado.


....................................
[...]


Motet pour les trépassés, Língua Morta, Lisboa, 2011.

domingo, 10 de julho de 2011

RUI PIRES CABRAL

ENTRETANTO


Não há que ter ilusões:
nós também somos

o fim da nossa estrada.
Com estas mãos,

com este mesmo coração
é que chegamos

ao cabo do futuro,
à extrema situação

de que partimos.
Mas, entretanto,

escrevamos.


Público, Lisboa, 9 de Julho de 2011.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

JORGE ROQUE

VIOLA PARTIDA, 3



Agilidade técnica, destreza na rima, ouvido para o ritmo, instinto harmónico – e a morte, Doutor, e a morte? Como nas teclas os dedos do pianista, a posição exacta, momento, peso, a ascensão e queda de cada nota, o seu trajecto contra o silêncio que a revela – e a morte, Doutor, e a morte? Conhecimento dos poetas de outras épocas, genealogia da língua, amplitude e precisão do léxico – e a morte, Doutor, e a morte? Domínio pleno do instrumento, no fundo é disto que se trata, claridade da articulação, objectividade expressiva, intensidade interior, saturação lírica – e a morte, Doutor, e a morte?


Telhados de Vidro, n.º 15, Averno, Lisboa, Junho de 2011.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

ARMANDO SILVA CARVALHO

OS ÓCULOS DO SR. PESSOA


Ouvi hoje dizer que o poeta sr. Fernando
Pessoa operou uma ruptura
com a lírica tradicional.
Diziam também que pensou em inglês nirvânico
e fez do vocabulário lusitano
a sua pátria.
Tudo isso me parece perfídia
de quem não soube olhar na rua a sua voz.
O poeta sempre soube ser o máximo canibal
entre todos os homens.
Por vezes, o sr. Pessoa sentava-se nas poltronas
da impotência e deixava arder o vidro
dos seus óculos.
À luz que se acendia sucumbia.
E todas as palavras tremiam a um canto do mundo
cansadas do seu baile de máscaras.
O fulgor da catástrofe
não ofuscava ainda a miopia sábia
dessa estranha – pessoa.
Digam e propaguem isto em memória sua.
Que eu nunca fiz de coisa alguma
a minha pátria.


Os poemas da minha vida [de O livro de Alexandre Bissexto], org. Eduardo Lourenço, Público, 2006.

domingo, 26 de junho de 2011

E. M. DE MELO E CASTRO

SONETO SOMA 14X


1 4 3 4 2
2 3 3 0 6
4 1 6 1 2
3 2 2 1 6

5 0 0 1 8
2 1 2 5 4
1 4 0 1 8
3 2 4 1 4

3 1 2 3 5
5 4 1 2 2
3 0 4 2 5

4 3 3 1 3
5 1 2 1 5
8 9 3 5 3



Poemas portugueses: Antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI [de Poligonia do soneto], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, 2009.