sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

INÊS DIAS

NOSTALGHIA


Ouvia-te falar e sentia
as chamas retomarem
as paredes do teu coração
de igreja abandonada.
O céu, nessa tarde,
era um leque de lantejoulas
ao rés do teu sorriso
e dos meus olhos encadeados.
Doía-me esse excesso de luz
que te fazia toda sombra,
o crepitar morno da pele
antes do incêndio consumado.

Sempre que dizias o seu nome,
riscavas outro fósforo –
ele avançava dentro de ti,
nas mãos uma vela prestes a cair.
Amo demasiado o fogo
para a suster. Prefiro
redesenhar as nossas cicatrizes,
ser depois a memória da pedra
fria em pleno Verão.


Em caso de tempestade este jardim será encerrado, Tea For One, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

RUI PIRES CABRAL

UMA CASA NA PADARIA

para a Daniela Gomes

Era uma casa qualquer onde a linguagem se sentava
como uma rainha. Não havia terra que ficasse
perto, o próprio ar já nos mordia os braços
e havia um rato morto na cozinha.

Pintávamos criaturas incompletas no vermelho inteiro
das bisnagas, por vezes o nosso retrato às avessas
com sombras no coração. Pelos telhados
os gatos vinham visitar-nos com cautela, as plantas
duravam pouco nas unhas de cada mês.

Havia tempo de sobra e um lance de degraus
que subia vacilante até onde fosse preciso.
E nós lá em cima cheios de graça,
com frio nas mãos e tinta nas mangas.


A super-realidade (2.ª edição, revista), Língua Morta, Lisboa, 2011.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

DAVID TELES PEREIRA

(EIN ZECHER IM MEER)

Seinen Kaisern und Helden
das geheime Deutschland

Piotr Michnik, o historiador, enforcou-se há duas semanas.
Quando finalmente o descobriram, oito dias depois,
era como se o branco encolher dos olhos rasgasse o coração do céu.
Formigas sobre o apodrecido revestimento do corpo,
cansado deste mundo graúdo,
saboreavam o seu rosto com melhor apetite.

Para quem morre só uma vez, estamos todos demasiado mortos.
Tome-se como exemplo o doutor Michnik
e a sua imensa biblioteca onde se enforcou.
Agora, para sempre, os dois corpos de um rei destroçado
repousam sobre o seu império de crepúsculos
e uma torrente de mar rude, incessante,
colheu-nos em murmúrios os ossos da história.

Má sorte a minha ou talvez não. Agora que penso
nisto à distância de uma chávena de café
a sua refutação parece-me óbvia:
Jovem, não vás à pesca com esse isco melancólico,
a morte raramente chega como chuva amável do céu
ao lugar em que cai
e nunca são as tuas ideias o que os insectos querem,
é o teu cadáver.


Criatura, n.º 6, Núcleo Autónomo Calíope da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ANTÓNIO GREGÓRIO

CARPINTARIA


Sobretudo tive pena de quem lhe fez
o caixão porque a morte creio é cheia de horas
mortas e o meu avô carpinteiro igual a
ele irá perscrutar cada pormenor da
obra do seu caríssimo colega. Já
o vejo desdenhoso abanando a cabeça
descarnada aos primeiros sinais de cedência
prematura da madeira à pressão da terra.



Criatura, n.º 6, Núcleo Autónomo Calíope da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A. M. PIRES CABRAL

PERGUNTAS


Alguém me permitiu que chegasse a esta idade
fazendo perguntas. Boa alma, essa
que leu em mim o aguilhão das dúvidas
e o achou legítimo e me permitiu que às vezes
fizesse umas perguntas de trazer por casa.

As outras perguntas, as menos correntes,
aquelas a cujo cofre só sábios têm acesso
(e para as quais aliás nunca encontram resposta,
tal qual eu para as minhas – estou vingado),
essas foram-me escondidas
como de uma criança o frasco da compota.

Ainda assim, impostos dessa forma
limites aos meus passos inquietos,
agradeço o benefício. Porque enfim

podia ter nascido sem a urgência
de inquirir coisa nenhuma.
Podia dar-me por satisfeito assim,
aninhado numa rábula qualquer.
Ronronar como um gato que o dono afaga
maquinal atrás da orelha enquanto lê.

Com acesso garantido a um lugar de balcão
com vista para a bem-aventurança.


Cobra-d'água, Cotovia, Lisboa, 2011.

domingo, 27 de novembro de 2011

JOSÉ MIGUEL SILVA

CORRENTE ALTERNA


Não sei o que é melhor neste jardim
amuralhado, se o aperto de viver
entre repouso e coerência, ou a injúria
de vogar entre palavras e mais nada,
dando visos de ilusão a criaturas

condenadas: a mesa posta à sombra
da figueira, a certezinha das roseiras
e das rãs, que não se cansam de louvar
a imolada providência dos insectos,
sem saberem da defunta Primavera.

O sol desaparece entre eucaliptos
e acácias infestantes. No laguinho
a noite tomba sobre folhas de nenúfar
e os peixes já recolhem para o fundo
o seu modelo de verdades sem mistura.

Está na hora de fechar este caderno
e acender o buzinão noticioso,
pois o espírito alimenta-se em atrito,
e a arte é um trajecto de nenúfar,
intervalo colorido, entre a luz e o lodo.


Serém, 24 de Março, Averno, Lisboa, 2011.

sábado, 19 de novembro de 2011

ANTÓNIO BARAHONA

CORRESPONDÊNCIA COM ALPHONSE DE CHATEAUBRIANT


Fugir, fugir o mais depressa possível
para o cume da montanha,
onde a neve não derrete
e, solitário, respirar neve,
tomar banho em neve,
esfregar-me com neve,
rolar na neve,
comer neve,
fazer-me, a mim próprio, de neve,
até sentir bater,
em redor de mim
e dentro de mim,
um coração de fogo.


Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno, Lisboa, 2011.

sábado, 12 de novembro de 2011

CARLOS POÇAS FALCÃO

"ICH HABE GENUG"


1.
O balouçar
da roupa sereníssima
no bairro das traseiras
recorda-me o engano
que ilumina em volta o mundo.
Não saltes tão de força, coração, mas também tu
oscila sereníssimo no tempo que ainda tens
para não desesperar

2.
E estava-se tão bem

Mas depois abriu
depois fugiu
desapareceu

Depois da tua morte
continua a claridade
a luz faz doer os olhos

E não podendo já
falar ao teu ouvido
nenhum segredo escuto
para dizer ao mundo inteiro

3.
Agora outra vez a caminhar
atraso de propósito o bater dos vários ritmos

Não estou contra
não vou contra
apenas subo um pouco
e desacelero

Assim vou desdobrando
um fio de oração sobre a cidade
Depois dos triunfos
e das pequenas mortes
é só pela humildade (a terra da alegria)
que posso regressar


Público, Lisboa, 12 de Novembro de 2011.

domingo, 6 de novembro de 2011

INÊS DIAS

LAPINHA


Para a Lorena


Às 21h25 a ilha fecha,
o último pássaro metálico
deixando para trás os portões
encerrados das lagoas.
É um tempo de aranhas
esquecidas das teias, aves
suspensas no voo, amigos
que invocam em silêncio as estações
e recordam ainda a Criação,
camada por camada.

Sobre os homens desce então
uma redoma de nuvens, que a estrela
única vem selar. Cada um risca
as fronteiras do sonho com sebes
de hortênsias ou muros de basalto,
esperando depois que as três
voltas do milhafre não o surpreendam
entre as espigas altas do mundo.

E o medo torna-se subitamente
navegável, mar de minúsculas
e carnudas conchas estendido
a nossos pés, para que possamos
sempre caminhar sobre
as águas.


Público, Lisboa, 22 de Outubro de 2011.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JORGE GOMES MIRANDA

ETERNAS PERGUNTAS


Não mais as minhas mãos
penteando os teus cabelos.

Não mais o silencioso som de chegares
a cadeira para a mesa.

Não mais o gesto de colocar-te o guardanapo
de papel ao pescoço.

Não mais o cortar o peixe em pedacinhos,
retirar as espinhas.

Não mais as eternas perguntas entre
mãe e filho.


Requiem, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.

domingo, 30 de outubro de 2011

E. M. DE MELO E CASTRO

CRÍPTICA


Para quem não sabe ler
Toda a escrita é críptica

O alfabeto cirílico é críptico para mim

Os ideogramas chineses ou japoneses
São igualmente crípticos (para mim)

Para os economistas
A poesia é críptica

Para os imbecis
A inteligência é críptica

Para os cegos de nascença
A cor é críptica

Para todos os homens
A sua vida é críptica

Para os vivos
A morte é críptica

Para os mortos
O que será a morte?


No limite das coisas, Campo das Letras, Porto, 2003.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

MIGUEL MARTINS

4 – DA LITERATURA



Gosto de pessoas que não escondem as suas fragilidades. Não precisam de usá-las na lapela do casaco, é claro, mas que não as escondam se calharem em conversa. Fobias, egoísmos, incompetências, doenças psiquiátricas, mendicidades, etc., são o melhor que temos para nos dar. Porque o mais é falso ou não é particularmente nosso. O Pierce Brosnan e a Tyra Banks não existem; a nouvelle cuisine é uma cagada; o Fernando Mendes e o peixe frito são mesmo muito bons. Sou muito melhor escritor do que o Hemingway. Quase toda a gente é muito melhor escritor do que o Hemingway. Não percam tempo com o Hemingway se tiverem uma bola, alguns amigos e um jardim onde jogarem. Não percam uma oportunidade de suar. O suor é sempre bom, a menos que se sue por dinheiro. Fumem. Fumem muito. Os dentes castanhos são melhores do que os brancos. Melhor do que os dentes castanhos só não ter dentes nenhuns mas ter quem nos corte maçãs e queijo da ilha aos bocados pequeninos. Que se foda o Hemingway.


Lérias, Averno, Lisboa, 2011.

domingo, 16 de outubro de 2011

LUIS MANUEL GASPAR

[«SOUBE ENCONTRAR NO AREÃO A FLOR EM TRANSE.»]


«Soube encontrar no areão a flor em transe.»
e apontaste o ventre aberto da ondina:
carnagem crua te enquadrava, laminosa,
a face fria com a nuvem de falenas,

um relâmpago no estômago, e essa ombreira
pálida à mercê da lamparina; ovíparos
recados sob estacas, e tripas, e folhas
e escamas também. Engastado à tua voz,

«Toca-me os olhos com as pontas, sem a sombra
que de repente se enrolou entre os meus passos.
Vê, sob os círculos do peito, o peixe negro:
morde, puxa, rasga a pele do braço avesso»

E há tempo à justa pra empalhar outra corola,
o laço escuro a ecoar a trovoada


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

domingo, 9 de outubro de 2011

RENATA CORREIA BOTELHO

PALO SANTO


fendiam o castelo e o nosso palco, em madeira,
gotas temíveis, prontas a molhar de incerteza
a mala gasta do palhaço, o fato de trapezista
que se equilibrava a custo na solidão do cabide.

fizemos uma roda e uma chama lenta, como mandam
os mais fundos preceitos da magia, calámos
baixinho todas as vozes, deixámos aos pássaros
e ao palo santo a decisão suprema daquela noite.

nada sabia eu, até ali, da alma do fogo abrindo
caminho entre as intimações da chuva. e o céu
vergou-se, num sopro, a um rasgo de sol, que trago
nestes olhos entretanto regressados à borrasca.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/ Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

MARIANA PINTO DOS SANTOS

4.




Escreveste há tempos numa carta para ninguém «pensei que sempre estarias aí». Agora sabes que não há presenças perenes nem ausências definitivas. Basta folhear as páginas dos livros para escutar as conversas entre poetas, um diálogo tímido que se trava e acelera no excesso que não cabe em lado nenhum. Oferecem-se uns aos outros as mais brutais ou gentis palavras. Palavras velhas como o mundo, tantas vezes ditas e escritas que dele se separaram há muito, mas às vezes voltam para o saudar. Perdem-se, encontram-se e perdem-se e encontram-se. E assim por diante.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/ Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

sábado, 1 de outubro de 2011

RUI PIRES CABRAL

O CABO DOS DIAMANTES VISTO DE POINT-À-PIZEAU


para o Luis Manuel Gaspar


A água-forte com jangadas
surge aqui reproduzida
por gentileza dos Irmãos
Maggs, de Londres:
....................as cores
já desbotaram e há pontos
de acidez na margem esquerda –
mas como lhes agradeço
a gentileza!
..........Os inimagináveis
Irmãos Maggs, de Londres:
quem eram, de que morreram
(seriam mais que dois)?
....................O tema
tem a urgência de um apelo
à evasão – é como sair à noite
num país desconhecido,
....................tanto mais
que as circunstâncias, nos passeios
junto ao rio, atiçam o tédio
nativo sob o chuvisco
de Março
..........e nada se compara
em mistério e sedução
ao Cabo dos Diamantes
visto de Point-à-Pizeau.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

INÊS DIAS

PEQUENOS CRIMES ENTRE AMIGOS


Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo –
com cuidado, por favor –
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.


Piolho, n.º 6, Edições Mortas/Black Sun Editores, Porto/Lisboa, 2011.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ROSA ALICE BRANCO

AS VESPAS DE PALERMO


A virgem sorri-me com boca de mosaico,
os meus olhos mergulham nos arabescos do chão,
geometria do sol descendo as ruas de Palermo.
Insectos aceleram bzz bzz até nas passadeiras
e Cristo impávido na igreja em frente.
Mas Cristo não atravessa as ruas:
está um pouco acima da cruz, um pouco antes.
Os anjos abandonam a escuridão do templo.
As vespas parecem pirilampos
e bzz bzz são as asas dos anjos
conversando sobre os turistas do dia.
O bzz bzz das vespas cá em baixo é de encontros
na noite de Palermo. Assentos tão etéreos
com um copo na mão, a outra na cintura
e nos punhos das vespas, vespas, vespas
atordoando o riso, o beijo passageiro.
E já os anjos estão a postos na sua nudez redonda
enquanto as vespas dormem um sono de alcatrão.
A ceia prepara-se. Cristo não nega o seu lugar à mesa.
Entre um bzz bzz e outro, olho-te no b barroco ou bizantino
e não aceito a tua morte, tu que atravessas acima das vespas,
vespas, vespas, acima do Etna que sobe ao céu
enquanto dentro se cozinham os infernos: a tua ceia,
os restos que deixaste para nós no microondas.


Gado do Senhor, & etc, Lisboa, 2011.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

VASCO GRAÇA MOURA

ELEGIA BREVE À POESIA


fugitivo passar pela retina,
no virar de uma esquina ou de um silêncio,
a tua ausência é este ensombramento,

porém que a despedida seja breve
e que voltes com um relâmpago, um
desvendar-se do mundo entrecortando

dobras desamparadas do real.
e eu pergunto: que vozes do crepúsculo
se apagavam então? talvez o vento

agitasse tristezas na folhagem,
e esse fosse o frémito dos seus
melancólicos sinais rumorejando,

ou talvez fosse a cama de hospital
e o branco desolado das paredes
e a mudez de estranhos aparelhos,

ou talvez fosse o próprio esquecimento
de que irias voltar, ou resvalar
numa lenta passagem de tercetos.


Relâmpago, n.º 27, Fundação Luís Miguel Nava, Lisboa, 2010.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A. M. PIRES CABRAL

RECADO AOS CORVOS


Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.

Deixai só a incombustível
memória das labaredas.


Aqui e agora assumir o Nordeste [de Como se Bosch tivesse enlouquecido], org. Isabel Alves e Hercília Agarez, Âncora Editora, Lisboa, 2011.

domingo, 11 de setembro de 2011

JORGE DE SOUSA BRAGA

SERMÃO DA MONTANHA


1.
Cho Oyo
Dhaulagiri
Evereste
Gasherbrum II
Gasherbrum I
Lhotse
Kangchenjunga
Sishma Pangma
K 2
Makalu
Broad Peak
Manaslu
Nanga Parbat
Annapurna


2.
Quando chegares ao cimo da montanha
continua a subir


Público, Lisboa, 10 de Setembro de 2011.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

FREDERICO LOURENÇO

ELEGIA


1.


Tempo de dança num vago compasso de bela toada
fecha solene a última festa do longo inverno.
Chove de novo na húmida noite gelada de março;
nada faria prever o perfume da música nova.

Vejo agora teu rosto no espelho da sala dourada;
luzem teus olhos ao brilho das velas nos lustres acesos,
quando de novo a orquestra entoa a música nova,
sempre que soa no brilho da sala a triste gavote.

Música minha alheia não soa às árvores altas:
ramos e folhas ondulam à chuva na escura montanha,
cantam por mim o que vejo ao ver-te no límpido espelho,
hoje que mais do que nunca rebrilham teus olhos brilhantes.

Pena seria portanto perdermos a última dança;
ambos sabemos que vêm vazios compassos de espera,
logo que raie daqui a minutos a pálida aurora,
ela que traz como sempre o ocaso dos nossos amores.

Relâmpago, n.º 27, Fundação Luís Miguel Nava, Lisboa, 2010.

domingo, 4 de setembro de 2011

MANUEL DE FREITAS

STABAT MATER


Benilde, ao balcão, reza de pé
a novena do Menino Jesus
de Praga. Alguém, que nunca
mais vi, tinha a mesma devoção
– e um mapa de heroína
a servir-lhe de braços.

Custa-me interromper a
novena para pedir, claro,
mais uma cerveja.
Tão diferentes modos de rezar,
debaixo do relógio que há vários anos
nos diz que ainda não são quatro.

Prevêem, na rádio, uma descida
da temperatura. É tudo o que
me importa saber.
Enquanto Benilde, ao balcão,
continua a rezar ao Menino Deus.

Fez-se silêncio. Tem
uma garrafa vazia ao lado.
Acendo um cigarro
em memória de Pergolesi
e escrevo, sem querer,
o primeiro poema do ano.


Juxta Crucem tecum stare, Alexandria, Lisboa, 2004.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

NUNO FÉLIX DA COSTA

A FADIGA DA INEVIDÊNCIA


Cansa-me escrever um poema e bem podia estar
a fazer outra coisa mais muscular ou libidinosa
mas uma parte da alma anseia por coisas indefinidas
quer o absoluto – medi-lo com gigantescos

números – Estes contêm o anulamento entre as propriedades
mais activas – Escrever um poema com músculos e libido
ou juntar estrelas avulsas desenhando as constelações
no firmamento são actividades da vontade

facultativas – mas escrever um poema sem estrelas
nem sonho nem libido nem a energia heróica
da sobrevivência é apenas escrever para tentar

que o poema seja escrito e contenha algo do silêncio
ou do que sobeja da frustração do absoluto se escapar
e deixar-nos a sua quase-evidência


Catálogo de soluções, Cortex Frontal, Lisboa, 2010.

domingo, 28 de agosto de 2011

MANUEL ANTÓNIO PINA

M., A ÚLTIMA PALAVRA


Entre restos de vida passada
refugiava-se o coração de cada um de nós no seu covil,
uma gota de sangue, pequeno vitral de reflexos coloridos,
na orelha de M., a pistola no chão perto da mão, ainda quente a pistola.

O que quer que tivesse acontecido
fora em sítios inacessíveis às notícias dos jornais
e aos flashes das máquinas fotográficas
voando agora como aves cegas à sua volta.

Um grande mutismo cobrira tudo
gelando os nossos passos e o que disséssemos
ainda antes de pronunciado;
percebia-se, de quem sempre quis ter a última palavra.

Não se percebia era a falta de uma explicação ou de um sinal
(ao menos um sinal justificar-se-ia dadas as circunstâncias),
apenas um botão do casaco mal abotoado,
provavelmente sugerindo alguma impaciência.


Público, Lisboa, 9 de Abril de 2011.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

GONÇALO M. TAVARES

RESULTADOS E INSTRUMENTOS



De um outro ponto de vista: utilizamos sempre uma régua para medir rectas e um transferidor para medir ângulos.

Experimenta trocar: a régua para medir ângulos e o transferidor para medir rectas.

Chegarás a resultados diferentes. Serão resultados falsos?

Eu não diria isso. Seria mais cauteloso. Diria que são resultados diferentes.


Breves notas sobre ciência, Relógio d'Água, Lisboa, 2006.

domingo, 21 de agosto de 2011

NUNO MOURA

[A ANITA]




A anita aprendeu a montar numa semana e depois foi a um concurso hípico e ganhou, a anita foi anita mamã e tomou conta do pantufa e do irmão pequenino e fez comida e lavou tudo e disse adeus aos pais da janela, a anita foi à quinta e mungiu a vaca, a anita foi ao supermercado pela 1.ª vez e comprou tudo para casa, a anita gosta de pizza e de crianças, a anita fazia tudo rápido e bem, a anita está pronta.


Calendário das dificuldades diárias, & etc, Lisboa, 2002.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

ALBERTO PIMENTA

[EU NÃO FAÇO SENÃO]


eu não faço senão
aquilo que é permitido
e está consagrado
na legislação fundamental da guerra
ou seja retaliar
pois se eu não os pusesse a mexer
mesmo sem pernas
enquanto trauteava
as velhas canções dos camaradas mortos
então eram eles que me fariam
o mesmo a mim
e eu não aprecio marchas fúnebres
nem bem garganteadas
por algum coro de qualidade
como o dos meninos órfãos de Viena
ou é Viana
para o caso
isso agora já nem altera nada


[...]

Reality show ou a alegoria das cavernas, Mia Soave, Lisboa, 2011.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

HERBERTO HELDER

[A ACERBA, FUNDA LÍNGUA PORTUGUESA]


a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão térmica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso



Poemas portugueses [de A faca não corta o fogo], org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, Porto, 2009.

sábado, 13 de agosto de 2011

MANUEL VAZ DE CARVALHO

1921-2011