quinta-feira, 30 de maio de 2013

MARTA CHAVES

[PODIAS OBEDECER A UM REGISTO DE PERDER]


Podias obedecer a um registo de perder
o respeito, levantar a saia se a tivesses,
alçar a perna se cão fosses, mandar à merda
quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,
o combate quase sereno. De vez em quando,
fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspiras-me,
e não queres saber muito mais do que isto.

Estás na vida com na montra alguns relógios,
parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo
menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos
viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para
esperar a madrugada, e que ela venha como cortejo
e aprendas a ficar.

Pedra de lume, Paralelo W, Lisboa, 2013.

sábado, 25 de maio de 2013

JAIME ROCHA

[DOIS HOMENS CORTAM-SE COM TESOURAS]


Dois homens cortam-se com tesouras
ao fundo de uma rua, separados por um
risco no alcatrão___________________

Não há sol, nem carros,
apenas o estrume avança empurrado por
grandes pás. É um momento singular,
as nuvens caem até ao chão e misturam-se
com o sangue dos homens que riem como
se construíssem um teatro. É de lá, desse
edifício desenhado num caderno, que as
palavras saltam como se fossem pássaros
a dançar em cima de mesas de metal.
As folhas voam atrás desse som que
o papel produz quando bate nos muros
e desfazem-se num pó amarelado, muito
próximo do veneno deixado pelos corpos.


Resumo: A poesia em 2012 [de Deitar a língua de fora], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 12 de maio de 2013

HELDER MOURA PEREIRA

[QUANDO PARO À PORTA DA ANTIGA FÁBRICA]


Quando paro à porta da antiga fábrica
onde meu avô trabalhou. Risca. Quando
a fábrica onde meu avô trabalhou
surge de repente aos meus olhos,
sem eu a ter procurado, e. Risca.
Passam de repente nos meus olhos
muitas imagens, uma delas é a porta
da fábrica onde meu avô trabalhou.
Ali me deu uma vez dez escudos para.
Risca. É um poema num café. Dele
faz parte uma mesa de café e um café.
Depois olho pela janela do café
e não está lá fábrica nenhuma,
não está lá porta nenhuma, e também
sinceramente não tenho bem
a certeza de ser eu que estou aqui.
Mas o meu avô estava lá de certeza.


Resumo: A poesia em 2012 [de Relâmpago, 29-30], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 5 de maio de 2013

ANTÓNIO BARAHONA

AUTO-RETRATO


Apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos.


As grandes ondas, Averno, Lisboa, 2013.

terça-feira, 30 de abril de 2013

FERNANDO GUIMARÃES

MORTE


Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.


Resumo: A poesia em 2012 [de Relâmpago, 29-30], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 28 de abril de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA

[VIVI TANTO]


Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida.


Resumo: A poesia em 2012 [de Em torno do imponderável], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

INÊS DIAS

ÁGATA


Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.

Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado de maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.

Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.


Um raio ardente e paredes frias, Averno, Lisboa, 2013.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

RUI PIRES CABRAL

OUTRO CASTELO


A melhor parte da minha juventude
entreguei-a à imatura ambição
da arqueologia, aos dias passados
na serra entre ruínas crestadas
pelo resplendor de Agosto.
Algumas fotografias sobrevivem
dessa época, mostram muros
derruídos e esconsos alicerces
ou túmulos cavados em penedos
com uma régua de desenho
para escala: não tinha então
do tempo ou da morte
uma ideia mais própria
e imediata.

.......... Ao revisitar convosco
um dos perdidos castelos
desses anos, quase me doeu
que aquela beleza inteira
pudesse ter persistido
na sua inalterada solidão,
enquanto o verde do planalto
estendia o mesmo sossego
em todas as direcções.
Ali em cima, afinal,
a única mudança
estava em mim –

.......... e a vossa presença,
amigos feitos noutra terra
e noutra idade, tornava
mais exacto o sentimento
de ter regressado irreconhecível
a um lugar do meu passado,
apenas para adivinhar
uma distância que não se vence
e o espectro de outro castelo
ao qual não é possível regressar.


Roteiro artístico-literário de Carrazeda de Ansiães [de Novas memórias de Ansiães], org. de Otília Lage, Junta de Freguesia de Carrazeda de Ansiães, 2013.

domingo, 31 de março de 2013

ANTÓNIO BARAHONA

O ÚLTIMO COPO


Só se lembrava, com nitidez, de beber o último copo, compulsivamente, como um condenado à morte. Engolira o líquido dum trago e rangera os dentes: ei-lo no inferno.
 
O resto era muito vago. O rosto aureolado da empregada de outro bar, até onde se arrastara, a perguntar-lhe se queria que chamasse um táxi.
 
– Só se vier comigo, respondera-lhe a rir.
 
Depois, deslocara-se, aos zigue-zagues, na direcção das Escadinhas do Duque, que começou a descer a quatro e quatro, soltando uivos como um lobo ferido de morte. Os uivos, às vezes, confundiam-se com gritos de pavão.

 
Resumo: A poesia em 2012 [de Maçãs de espelho], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 28 de março de 2013

ABEL NEVES

[UMAS COISAS ATRÁS DE OUTRAS]


umas coisas atrás de outras
fixou na parede a tabuleta e lê-se
proibida a afixação
quem plantou aquela nespereira sabia o que fazia
agora há mais pássaros atrás das nêsperas
muito para além dos frutos alguém
escreveu numa parede do cais do sodré
a fatinha tem sida
aviso enorme
de enormidade
e ali perto outra inscrição
num prédio do corpo santo
paredes brancas povo mudo


Resumo: A poesia em 2012 [de Deitar a língua de fora], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A. M. PIRES CABRAL

FOI PARA ISSO QUE OS POETAS FORAM FEITOS


semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos



Resumo: A poesia em 2012 [de A vista desarmada, o tempo largo], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.


sexta-feira, 1 de março de 2013

VITOR SILVA TAVARES

PRÉMIOS...


Tem a chafarica o prazer de informar que o alegado «editor» VST declinou aceitar, e portanto receber, um tal «prémio carreira» que por aí tem sido divulgado. O referido «editor» fez questão de comunicar à festiva mensageira que não sendo carreirista de coisa nenhuma, mais lhe surgia adequado atribuir tal prémio ao Tony Carreira, isto porque não se lembrou na altura da carreira 28 dos eléctricos, essa que, sim, frequenta.

O prémio foi pois atribuído à revelia.
 
Livros & etc (blogue), Março de 2013.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

MANUEL DE FREITAS

II


Lá em baixo, como é também
sabido (embora de alguns apenas),
fica a taberna da Dona Benilde.
Central da Praça das Flores,
se preferirem. Onde não encontrarão
uma coelha morta, os dedos sujos
de tabaco do senhor Jorge
ou o rasto ainda mais sujo da felicidade.
Mas podem facilmente encontrar-me,
junto ao relógio parado que fixei
a tarde inteira – enquanto o 100, coitado,
subia e descia o mais improvável dos destinos.

Razão tem sempre Benilde, ao dizer
por exemplo que «acredita mais em coisas
más do que em coisas boas».


Vai e vem, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

RENATA CORREIA BOTELHO

[COMO ESTA CASA QUERO]


Como esta casa quero
abeirar-me da morte,

e assim fechar o corpo
no tempo de uma ave
cansada de sombras

fria, à espera
da fúria de deus.

Envelhecer escura
como esta casa,
cheia de fantasmas dentro

roseiras bravas
trepando ventanias

e um poço no sítio
difícil do coração.


Esta casa (com Emanuel Jorge Botelho, Inês Dias e Manuel de Freitas), Averno, Lisboa, 2013.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

RUI CARDOSO MARTINS

NOSSO DE CADA


No trigo do meu avô
estive na floresta do pão
se o fogo vier agora
morrerei como um ratinho.
Na rua do forno da terra
um homem esperava na cama
vai morrer já morreu
o tio Zé Benigno
minha mãe que é de fora
aos lenços perguntou
e já lhe deram uma sopa?
o forno não arrefece
e o homem viveu mais dez anos.
Na seara da colina
o espantalho de centeio
assustava as negras gralhas
vestirá as calças do meu tio
o que matou o cigano
que o ataca com a navalha.
O pão é o rei dos alimentos.
Mas em Chelas o meu homem
do talho atirou migalhas
de hambúrguer aos pardais
ainda hoje se espanta
o que eles gostam de carne.


AA. VV., Este é o meu corpo, Tea For One, Lisboa, 2013.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

MIGUEL-MANSO

[PONHO PALAVRAS ONDE VOU MORRER]


ponho palavras onde vou morrer
e estremeço porque a vida se dissipa
como água derramada no soalho

entre muitas outras coisas escrever
é procurar nos confins

além tempo e sucessão de espaços
a demorada nomenclatura do efémero


Aqui podia viver gente, Primeiro Passo, Amadora, 2012.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A. M. PIRES CABRAL

É FEIO APONTAR


É feio apontar para fora de nós.

Mesmo que seja para uma simples efígie,
e mesmo que essa efígie seja de uma mãe ausente,
isto é, morta, isto é, triturada prematuramente
pelas rodas dentadas da máquina insegura
e mal oleada a que chamamos tempo

e mesmo que nos tenha sido pedido
para apontar e pôr ar de quem diz
«eis aquela em quem penso dia e noite»
com a boina na mão em sinal de respeito

enquanto a câmara solícita regista
esse respingo de emoção por encomenda

que andará depois pelas gavetas
e umas vezes por outras virá à luz do dia
e invariavelmente gerará
uma lagrimazinha intempestiva

que, como se faz com as moedas,
possa ser introduzida na ranhura
do mealheiro das sombrias
memórias familiares,


Nós, os desconhecidos, org. de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral, Averno, Lisboa, 2012.

domingo, 27 de janeiro de 2013

MIGUEL MARTINS

[A VIDA É IMPOSSÍVEL, NÃO IMPORTA]


A vida é impossível, não importa
o Vicks Vaporub, o que nos fazem
ou o que nos fazemos, se ou quanto.
Desde que o primeiro homem se lembrou
de que não era cão, ficámos condenados
a saltérios e musas e juros com fermento,
à sina de gravatas e aprestos.
Que mal tinha ser cão, além do bem
de comer carne crua e cheirar cus
e vaguear pelas estações do mundo?
Mas não: havia que salgar a focinheira
de porco, pôr rosmaninho nas virilhas
e inventar a cadeira rotativa,
moribundelirar amores obtusos
e de tudo intentar a mais-valia,
composta e previdente e pequenina.

Ora, acontece que, seja dia ou noite,
só me apetece ladrar à maresia.


Telhados de Vidro, n.º 17, Averno, Lisboa, 2012.

domingo, 20 de janeiro de 2013

ADÍLIA LOPES

A JOSÉ ESTÊVÃO


Tia Paulina:
– Esta pequena mata-se, não come bolos.
Avó Zé:
– É destas coisas, Paulina, come bolachas.
De noite, a Tia Paulina e a Avó Zé não dormiam,
coversavam na cama, eu ouvia-as no meu quarto.


Grisu, n.º 1, Grisu – Associação Cultural, Guimarães, 2012.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

RUI PIRES CABRAL

A EDIÇÃO INGLESA

para a Mariana Pinto dos Santos

Na primavera de 1476
o jovem Leonardo da Vinci
escreveu no verso de uma carta
desesperada: If there is no love,
what then? Escreveu-o, bem
entendido, no seu vernáculo
nativo – eu é que só tenho
a edição inglesa.

De quantas coisas
nesta vida, meu Deus, só tenho
a edição inglesa – quer dizer,
a precária, aproximativa
tradução? E que fazer
com estas noites de Junho,
se o amor, justamente,
é uma delas?


Grisu, n.º 1, Grisu – Associação Cultural, Guimarães, 2012.

domingo, 30 de dezembro de 2012

ROSA MARIA MARTELO

RESTITUIÇÃO


Bicéfalo e eu acabáramos de regressar do nada graças a uma improvável brisa, quando aquela mulher, que a avaliar pelo recorte e nitidez das roupas certamente estaria viva, se dirigiu a nós de sorriso constrangido, a saber se podíamos indicar-lhe o caminho para a Rua do Mundo.
 
Se deus gostasse de máquinas fotográficas, talvez nos tivesse reunido num instantâneo embaraçoso: uma mulher viva e sem sombra e as sombras sem vivos que nós somos, os três juntos à beira nada. Mas era preciso que deus nos visse, coisa de que duvido. De qualquer modo, havia demasiada luz para uma boa fotografia.
 
Dissemos-lhe que não, que não éramos dali, não sabíamos o caminho. E para que a mulher pudesse encontrar a rua procurada, logo desaparecemos levando connosco toda a brancura à nossa frente, esse grande vazio que ela tranquilamente não via.


Nós, os desconhecidos, org. de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral, Averno, Lisboa, 2012.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

INÊS DIAS

PRESÉPIO TRADICIONAL DA NAZARÉ


Porque o amanhã já começou.
Veio com um telefonema,
sem deixar dormir a véspera
ou sonhar uma espera diferente.

Instalou-se de costas para nós,
mais o seu cortejo de sintomas:
pastoras de rigoroso negro
como velas apagadas,
um pouco de sangue no nariz,
mãos afinal iguais, vazias.

Já não sobra tempo, no meu corpo,
para outra vida: se lhe forçassem
uma canção de embalar, seria apenas
o arco exacto entre o cemitério cobiçado
pelas ondas e a beleza desamparada
de um penhasco a desmoronar-se
eternamente sobre o mar. E eu no fundo.


Merry little Christmas, Averno, Lisboa, 2012.

domingo, 16 de dezembro de 2012

MANUEL DE FREITAS

BWV 992

para o José Carlos de Almeida Gonçalves (in memoriam)

Lembro-me bem dessa tarde, junto à piscina em ruínas, e com a Graça ao lado. Nunca me tinham perguntado se escrevia. Disfarcei o melhor que pude o embaraço, mas a dúvida era recíproca. Anos mais tarde, esclarecemo-nos mutuamente. Tive a franqueza de lhe dizer pouco interessantes as prosas e poemas que me mostrou; e ele foi grande ao ponto de me elogiar como poeta, sem sombra de ressentimento. Nesse ponto, aliás, nunca houve equívocos. Não partilhávamos os mesmos romancistas, nem compositores (embora nos unissem Bach e Brahms, entre outros), mas em poesia, regra geral, estávamos de acordo. Que pena, tio, não gostar de José Miguel Silva, pensei eu – minutos antes da cremação do Sérgio Eloy.
 
Ainda assim, e dada a enorme diferença de idades, não é comum haver tantas sintonias. Teria cada um de nós o seu Bach (de Karajan o dele, de Leonhardt o meu), mas ele era-nos igualmente imprescindível, sem que acreditássemos no seu ou em qualquer outro Deus. E seríamos, seremos ainda, os únicos naturais do Vale de Santarém a amar a música de Sainte-Colombe, à qual chegámos, como convém, solitariamente.
 
 
Cólofon, Fahrenheit 451, Lisboa, 2012.

domingo, 9 de dezembro de 2012

JOÃO ALMEIDA

DIÁRIO DE RUM


Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram ao governo
Falam línguas.


Telhados de Vidro, n.º 17, Averno, Lisboa, 2012.

domingo, 2 de dezembro de 2012

ANTÓNIO BARAHONA

OS PASSOS DO COELHO


Ontem, 15 de Setembro de 2012,
efectuou-se uma manifestação pacífica
do povo português, que, bem domesticado,
não partiu montras, nem agrediu a bófia,
talvez porque a fome ainda não é muita.

Mas houve uma excepção:
um jovem de vinte e um anos
partiu, aos cacos, a realidade em foco
e agrediu a própria vida
imolando-se pelo fogo.


Telhados de Vidro, n.º 17, Averno, Lisboa, 2012.

domingo, 25 de novembro de 2012

RUI CAEIRO

[QUEM VIVE PARA O AMOR ESTÁ LIXADO]


Quem vive para o amor está lixado
não tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio sem cor nem forma e um silêncio
tumular por dentro. Mau, muito mau
para se levar alguém. Mas tu vieste
e de imediato tudo fôra já decidido
como quando alguém nasce e olha em torno
– pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
a nós, um ao outro por natural companhia
era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso. E tínhamos o tempo todo para ver.


Resumo: A poesia em 2011 [de O quarto azul e outros poemas], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Fnac/Documenta, Lisboa, 2012.

domingo, 18 de novembro de 2012

JORGE ROQUE

CÍRCULO


Temos de confiar nas pessoas, afirmava o meu pai, perante as objecções da minha mãe que eram muitas e fundamentadas, e eu criança pouco entendia, embora me sentisse inclinado a defender o meu pai contra as armas e razões da minha mãe, talvez porque na sua eloquência a minha mãe ganhasse clara vantagem e eu nutrisse simpatia pelos derrotados, ou simplesmente porque o gene se tivesse cumprido e eu na minha crença insensata repetisse o meu pai.
 
Quanto mais sofro por viver de coração aberto, é o que desta memória hoje se ilumina, mais me reconheço nas palavras do meu pai. Quanto mais envelheço, mais me aproximo do lugar que deixou vazio.


Cão Celeste, n.º 2, Lisboa, 2012.

domingo, 11 de novembro de 2012

JOSÉ CARLOS SOARES

[NADA OBTERÁS]


Nada obterás
a não ser a perda,

a cor cega
que dentro já separa
a paz secreta

dos espinhos. Inevitável
sombra insubmissa
decide por que passos
se prepara a entrega.


Do lado de fora, Edições 50 Kg, Porto, 2012.

domingo, 28 de outubro de 2012

MIGUEL MARTINS

MORTE-VIVA


Mais uma queda. Mais uma lasca de madeira cravada no corpo. Estacas de travar vampiros, sêdes. Ossos esmagados, sinapses rotas e, sempre, o fígado fosfórico. De cada vez, a dúvida absoluta. A suspensão da vida. A estupidez mais iníqua amesquinhando a nossa suposta divindade. Transplante? Broa dura? Pastéis de massa tenra de efémeros perfumes? Escolha-me o Diabo a sorte! Tudo poderia ter sido banal, banal e generoso, tivera eu chegado três gerações mais cedo. Vejo-me, à chuva, a apanhar ouriços sob os castanheiros. Analfabeto. São. Vejo-me e não me vejo em parte alguma. Muito menos aqui. Ainda menos agora. Ah!, quem me dera perder, ao menos, a memória dos castanheiros que nunca toquei, que apenas de relance pude amar.
 
 
Resumo: A poesia em 2011 [de Lérias], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2012.

sábado, 20 de outubro de 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA

1943-2012