quarta-feira, 27 de novembro de 2013

LYRICA


terça-feira, 26 de novembro de 2013

JOSÉ MÁRIO SILVA

AVENIDA ALMIRANTE REIS


Os corpos encostados à parede
talvez recordem paisagens brancas,
um inverno ucraniano com árvores
perdidas na neve. Que outros olhos
viram estes olhos? Eu passo por eles,
eles não me vêem. Partilham a garrafa
de vinho, um pente. E a montra do café,
apagada e triste, serve-lhes de espelho.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Luz indecisa], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

domingo, 24 de novembro de 2013

A. M. PIRES CABRAL

AMORAS SEGUNDO S. FRANCISCO


Como as inquietas aves ribeirinhas,
também nós fazemos em Agosto
a nossa safra de amoras,
evitando com prudência os picos
que as dificultam e tornam cobiçadas.

Bendita sejas, irmã silva, que nos dás
as amoras e os picos.

Que de tudo se precisa nesta vida.
(Na outra, por enquanto não se sabe.)


Gaveta do fundo, Tinta da China, Lisboa, 2013.

domingo, 10 de novembro de 2013

HELDER MOURA PEREIRA

FALTA DE CARÊNCIAS


Era já noite cerrada, era o último metro
para a baixa-chiado, e eu vi, assustei-me
por ver, um homem a roçar-se encostado
a uma mulher, ou seria um homem, um
travesti, um carregador de piano?

Afinal era um assalto e eu, meses mais
tarde, vim a encontrar na ala dos castigados
o assaltante, que entretanto passara
a pronto. De que precisavam os castigados?
Precisavam de fita-cola, cola, papéis,
esferográficas. E livros. De poesia.

O pessoal gosta muito. Dá muito jeito
para pôr nas cartas, daquelas com amor
lá dentro. A ala dos castigados era a ala
dos namorados. Aquele pessoal com falta
de carências e desconfiado, por natureza.

Pobre terra minha, de euforias vãs,
cantava outro, quem me dera que tudo isto
acabe, há na minha vida muita dor,
meu amor, quem me dera ver-te
e apalpar-te até me doerem as mãos.
Seria só esse o meu negócio.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Mútuo consentimento], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

MIGUEL-MANSO

[ABRES O ALÇAPÃO, PÕES O BRAÇO]


Abres o alçapão, pões o braço lá dentro. O que retiras de lá não é o que retiras de lá, mas ocupa um lugar. É um lugar o que retiras do alçapão. Um lugar a menos


Um lugar a menos, edição do Autor, Lisboa, 2012.

domingo, 27 de outubro de 2013

RUI PIRES CABRAL

MEU AMIGO


Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.


Resumo: A poesia em 2012 [de Ladrador], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 13 de outubro de 2013

ADÍLIA LOPES

PRAZENTEIRA


Fernando pessoa escreveu
gostava de gostar de gostar
eu gosto de gostar
tenho sorte


Andar a pé, Averno, Lisboa, 2013.

domingo, 6 de outubro de 2013

MANUEL DE FREITAS

MISERY IS THE RIVER OF THE WORLD


Ecoa pelas ruas da cidade o jazz
aproximativo da Always Drinking Marching
Band. Mas esta noite Frank – a quem
os locais talvez chamem Chico ou qualquer
outro nome – não ocupa o seu lugar cativo,
junto ao número 5 da Rua do Diário dos Açores.

Tenho pena. Habituei-me à sua presença
distante. E partilhamos, afinal,
os mesmos vícios: tabaco, tristeza, álcool.
Separa-nos, caso lhe importe, o abismo do conforto.
Não tive sequer a coragem de lhe dar esmola,
gesto de que, provavelmente, nem se aperceberia.

Boa noite, Frank. Que as estrelas te iluminem
as noites ou os dias igualmente escuros e sem préstimo.


Pontas do Mar, Paralelo W, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

JOSÉ LUÍS COSTA

TERCEIRO MELÓMANO RESPONDE A MINISTRO E APROVEITA PARA REINCIDIR


«Nós temos hoje uma geração extraordinariamente bem preparada, na qual Portugal investiu muito. A nossa economia e a situação em que estamos não permitem a esses activos fantásticos terem em Portugal hoje solução para a sua vida activa. Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente positivo.»
Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares do Governo de Portugal, 
in Jornal de Negócios, 16/11/2011


– Ouve lá,
ó tu que fumas:
então e emigrar?

Pra Angola, prá Noruega, pró Qatar?

–Não emigro.

– Pra Israel, singrar como rabino?

– Não emigro.

–Prá Suécia – diz que é tão bom o ensino?

– Não emigro.

– Prá Holanda, exportar-barra-importar pepino?

– Não emigro.

– Prós Esteites, buscar cura pró albino?

– Não emigro.

Eu sou mais
pró-cá tar.

Aliás,
emigrar, um dia, só pra um destino:

país com colhões de encomendar hino
ao excelentíssimo senhor Brian Eno.


Da Madragoa a Meca, & etc, Lisboa, 2013.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA

1924-2013



domingo, 22 de setembro de 2013

RUI NUNES

[FAÇAM COM AS PALAVRAS AQUILO QUE QUISEREM]


façam com as palavras aquilo que quiserem,
desfaçam-nas:
uma palavra desfeita não magoa,
uma palavra inteira rasga a boca,
uma palavra inteira é a certeza
de outra palavra inteira, a corda fina
que vai da trave à terra, do caibro ao vento
de uma janela aberta:
a imprecisa
minúcia da poeira


Uma viagem no Outono, Relógio d'Água, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

RUI CAEIRO

[ENCONTRO EM FRIELAS UM GATO]


Encontro em Frielas um gato
de rua que me olha com desdém
Acho que sabe quem eu sou


Um gato no inferno, edição do Autor, Lisboa, 2013.

sábado, 31 de agosto de 2013

PAULO DA COSTA DOMINGOS

ESTADOS GERAIS


A palmada nas costas
acompanha a rodada paga;
o obrigado-meu-povo
com a sacanada feita;
o desencarceramento dentre
chapa em harmónio;
as harmonias entrecortadas
pela brusquidão de serras;
os prefácios, as badanas
e os tumultos das massas;
agulhas nas virilhas
para uma ligação via satélite.

Uma côdea dura no ânus
concita o sorriso partidário;
a macaca caída das árvores
durante a última ceia;
o burro que ri no hemi-
ciclo e a vaca na palha;

a santa aliança divorciada
da sagrada família.


Resumo: A poesia em 2012 [de Poemas abrasileirados], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

JOAQUIM DE BARROS FERREIRA

NAS TÍLIAS O SUSSURRO DAS ABELHAS


A brisa ia direita às tílias
onde as abelhas se enchiam de pólen.
Iam e vinham numa orgia
de bater de asas.
Na grande áurea tarde
sempre deixavam cair alguma poalha.
Falo das abelhas e do perfume das tílias
como se fosse do sabor de um livro
suspendendo-me todo.


Bestiário trasmontano e alto-duriense [de Terra adagio cantabile], org. de A. M. Pires Cabral, Grémio Literário Vila-Realense, Vila Real, 2013.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

NUNO DEMPSTER

SINAIS


Eu pressenti que estavas a faltar-me
quando te perguntei se gostarias
de regressar no Inverno
aos temporais da costa,
de rires como rias
por sob o guarda-chuva destroçado.
Falaste de humidade,
inventaste miasmas
trazidos pelo mar,
deitaste tudo fora como fazem
as mulheres em plena queda.
E eu então, que era louco por tormentas,
esqueci-as, não fosses tu fugir.
Mas de que me valeu?
Hoje encerro em palavras
a chuva, a ventania, a confusão do mar
numa folha de carta
com velhas cercaduras negras
que um dia trouxe
de casa de meus pais.


Resumo: A poesia em 2012 [de Elegias de Cronos], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 18 de agosto de 2013

MANUEL DE FREITAS

SHE LIVES BY THE CASTLE


Meu amor – assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.

Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de uma amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.

Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.

E assim, meu amor, acaba este poema.


Qui passe, for my Ladye, edição do Autor, Lisboa, 2005.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

BEATRIZ HIERRO LOPES

VERMELHO


Não sei de músicas que acalmem os pássaros, nem sei de pássaros que amanheçam no sangue ou de beijos dados no pulso para chegarem ao coração. Não sei de nada que tenha voo, cor de tempo – vermelho, sempre vermelho, como odeio vermelho –, ou de como se nasce das pedras. Muito embora tenha caminhado sobre elas, pressinta cores dentro do peito e goste de olhar muito acima da copa das árvores só pela ideia de que, ao contrário dos pássaros, as estrelas me durarão o futuro todo. E se me falam de músicas, sangue ou beijos, sorrio e fecho o rosto, porque nunca gostei do que não me durasse mais do que este instante.


É quase noite, Averno, Lisboa, 2013.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

NUNO COSTA SANTOS

ÀS VEZES É UM INSECTO QUE FAZ DISPARAR O ALARME


Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
um zumbido que detona o coração.

Às vezes é uma vírgula que tomba na frase
uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

Às vezes é um fósforo
que resplandece venturosas entradas
no dicionário dos dias.

Às vezes nem isso.

Às vezes é um sopro que revira o mundo
no ventre do tempo
como quem se prepara para uma nova vida.


Resumo: A poesia em 2012 [de Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

JORGE ROQUE

FOME SEM SENHOR

 
O poder é uma fome sem senhor. Duas mandíbulas só dentes, voracidade e estômago. Uma certeza cujo sentido é não parar de mastigar. Não devora apenas os medíocres e os fracos, importa que o entendas. Devora todos por igual.


Cão Celeste, n.º 3, Lisboa, 2013.

domingo, 14 de julho de 2013

MIGUEL MARTINS

[ERA O INVERNO DE 69]


Era o Inverno de 69.
Havia notícias como há sempre,
e suponho que fizesse frio.

A parentela acorria,
acotovelava-se ao redor da cama,
fingia estar feliz, ou talvez estivesse,
sabe Deus porquê. (Ao mesmo tempo,
abrigava-se da chuva.)


Nunca fui tão pequeno, nem tão pouco
parvo. A partir de então, industriaram-me
nas artes e ciências de estar vivo,
excepto a respiração, que é oferecida:


comer, roubar, fugir,
ser intramuros e existir na gleba,
e desistir
silenciosamente.


Sim. Foi, para mim, o Inverno dos Invernos.

E não há meio de acabar.


Resumo: A poesia em 2012 [de A metafísica das t-shirts brancas], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

sábado, 29 de junho de 2013

MANUEL DE FREITAS

BECHEROVKA


Norueguesa, alta, de um moreno
duvidoso que sorria muito.
Pedia-me insistentemente para não estar
triste como deveras estava.
E pagou-me, creio, o último copo,
antes de me perguntar "o que fazia".

Escrever, sobre a morte, não é
exactamente uma profissão.
Mas foi a resposta que lhe dei,
enquanto um guardanapo qualquer
abreviava, só para ela, a minha "obra".

Nunca saberei se percebeu a letra,
se comprou os livros, se chegou
a ouvir o que em péssimo francês
lhe tentei dizer nessa noite, a mais perdida.

Os versos são quase sempre isto: um modo
inaceitável de dizer que não tocámos o corpo
que esteve, por uma vez, tão próximo
de nós – e que nem um nome breve nos deixou.


A flor dos terramotos, Averno, Lisboa, 2005.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

JOÃO ALMEIDA

OFÍCIO DE TAXIDERMIA III


Contava-me sem preço
Como o amarelo no peito do papa-figos
Parava com felicidade o desatino e a morte

Está demente e já ninguém se recorda
De o ver escanhoado
E com dinheiro no bolso

E podia haver alegria na merda da situação
Aquela que os revoltosos levam
Nos explosivos
Na decisão repentina

Mas por trás dos olhos só um cão seco
– Fala-me dos coelhos, João.


Telhados de Vidro, n.º 18, Averno, Lisboa, 2013.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

EMANUEL JORGE BOTELHO

DIAGNÓSTICO DO SÍTIO POR QUEM ESTÁ NO LUGAR

para Antonin Artaud

dêem-me um muito longe que não arda.
mascar vidro não é profissão, dizem-me,
nem deixa que o amor da morte me leve
para perto de lisura do vinho.

embora não me vou,
e se for irei ficando,
sem oiro no rosto
nem coice que me peça cicatriz.
fico.
ato o amanhã no dedo de pescar
e saco-lhe a guelra quando picar
o calendário.

não tenho tempo.
eles não sabem onde estou
e só por isso não me mato.
quero deixar um açoite armadilhado,
antes que a data prima
a leveza do gatilho.

fico.
fico com um pão a morrer no bolso
e os lábios secos de nomes
para dar a cada dia.

que horas são, meu amor?
a que horas chega a hora certa?


Telhados de Vidro, n.º 18, Averno, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

RUI CAEIRO

RETRATO


Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem


Rua dos Correeiros, n.º 60, 1.º esquerdo, AA. VV., Paralelo W, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

MARTA CHAVES

[PODIAS OBEDECER A UM REGISTO DE PERDER]


Podias obedecer a um registo de perder
o respeito, levantar a saia se a tivesses,
alçar a perna se cão fosses, mandar à merda
quem vem socorrer-te da vida e te decepa os dedos.

Com um rigor de artilharia que amortece o cansaço,
o combate quase sereno. De vez em quando,
fazes a conta de cor e dizes apesar de tudo, inspiras-me,
e não queres saber muito mais do que isto.

Estás na vida com na montra alguns relógios,
parado, e pensas numa sepultura no mar, tudo
menos esta terra, tudo menos uma corda, tudo menos
viver a pulso e ter de sacudir a chuva contra o casaco.

Os dias sem prognóstico, vivendo apenas para
esperar a madrugada, e que ela venha como cortejo
e aprendas a ficar.

Pedra de lume, Paralelo W, Lisboa, 2013.

sábado, 25 de maio de 2013

JAIME ROCHA

[DOIS HOMENS CORTAM-SE COM TESOURAS]


Dois homens cortam-se com tesouras
ao fundo de uma rua, separados por um
risco no alcatrão___________________

Não há sol, nem carros,
apenas o estrume avança empurrado por
grandes pás. É um momento singular,
as nuvens caem até ao chão e misturam-se
com o sangue dos homens que riem como
se construíssem um teatro. É de lá, desse
edifício desenhado num caderno, que as
palavras saltam como se fossem pássaros
a dançar em cima de mesas de metal.
As folhas voam atrás desse som que
o papel produz quando bate nos muros
e desfazem-se num pó amarelado, muito
próximo do veneno deixado pelos corpos.


Resumo: A poesia em 2012 [de Deitar a língua de fora], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 12 de maio de 2013

HELDER MOURA PEREIRA

[QUANDO PARO À PORTA DA ANTIGA FÁBRICA]


Quando paro à porta da antiga fábrica
onde meu avô trabalhou. Risca. Quando
a fábrica onde meu avô trabalhou
surge de repente aos meus olhos,
sem eu a ter procurado, e. Risca.
Passam de repente nos meus olhos
muitas imagens, uma delas é a porta
da fábrica onde meu avô trabalhou.
Ali me deu uma vez dez escudos para.
Risca. É um poema num café. Dele
faz parte uma mesa de café e um café.
Depois olho pela janela do café
e não está lá fábrica nenhuma,
não está lá porta nenhuma, e também
sinceramente não tenho bem
a certeza de ser eu que estou aqui.
Mas o meu avô estava lá de certeza.


Resumo: A poesia em 2012 [de Relâmpago, 29-30], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 5 de maio de 2013

ANTÓNIO BARAHONA

AUTO-RETRATO


Apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos.


As grandes ondas, Averno, Lisboa, 2013.

terça-feira, 30 de abril de 2013

FERNANDO GUIMARÃES

MORTE


Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.


Resumo: A poesia em 2012 [de Relâmpago, 29-30], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 28 de abril de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA

[VIVI TANTO]


Vivi tanto
que já não tenho outra noção
de eternidade
que não seja a duração da minha vida.


Resumo: A poesia em 2012 [de Em torno do imponderável], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.