quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

INÊS DIAS

[PASSOU DEMASIADO TEMPO]

"When someone is dying
there is no point in telling him about the snow."

IRIS MURDOCH

Passou demasiado tempo
desde o último fim do mundo.
Os mecanismos quebraram-se
e sobram agora marés confusas,
países de fronteiras esmaecidas.

Visto de cima, o homem
é esta matéria mínima,
insecto negro de patas para o ar,
brincando a haver deuses
que o contemplem ainda.
(A noite toda no lavatório
branco da vida,
à espera que algo desça
e lhe devolva contornos,
uma escala compreensível.)

Mas os deuses despiram Orfeu
da sua curiosidade,
dobraram sombra sobre
sombra numa cadeira
antes de fecharem a conta.

Ao fotógrafo, deixaram
apenas um travo amargo
em jeito de temperatura.


Tempos vários, Paralelo W, Lisboa, 2014.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ALBERTO PIMENTA

VEJO


vejo
a pequena suja
a brincar na rua
com os cagalhões dos cães

não digo que seja sublime mas
como tudo
não deixa de ser interessante

alguns
parecem as
galáxias
mais longínquas
ou os berços
de estrelas
Barnard 68
tudo claro
mérito dela
e das suas mãos

gostava também
de ir brincar com ela

mas
quem sou eu para isso
já nenhum poeta o faz
só uma ou outra das 4.370
inspecções-gerais da vida corrente

já nenhum poeta o faz
nem os maiores
nem os simplesmente grandes
e menos ainda os pequenos

já nenhum poeta o faz


De nada, Boca, Lisboa, 2012.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

MANUEL DE FREITAS

STRELA NEGRA

para o Rui

Sabemos, há muito tempo,
que são cada vez mais frias
as manhãs. E, no entanto,
teimas em inventar
um biombo para a morte,
um rosto de arame
que conhece os últimos porteiros.

A suave desrazão daquele
charro fez-nos perceber
subitamente tudo,
enquanto confundias
o Largo do Conde Barão
com a Praça do Rossio
e a poesia
com o corpo mais ausente.

Mas vou ter de concordar
que era alegre, demasiado alegre,
a música dos táxis nessa noite:
30 de Dezembro de 2004.


Cretcheu Futebol Clube, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

MARGARIDA FERRA

ARROIOS


Não há passeio, é uma ponte
de metal verde que nos leva
a casa. Rente ao edifício,
arrancaram as pedras
da calçada – uma a uma.
Escavaram a terra
que ficou, depois.
Os prédios (o número dezoito
e os outros pares) parecem
aguardar o transplante.
Mostram os canos
descobertos: raízes
que os ligam,
a trama subterrânea da cidade.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Curso intensivo de jardinagem], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

RUI CAEIRO

[ENTRE OUTRAS COISAS QUE OS PAIS SÃO]


Entre outras coisas que os pais são ou costumam ser, o meu pai foi, tem sido, um problema para mim. À semelhança, de resto, do que eu próprio devo ter sido, e penso que continuarei a ser, para ele: outro problema.

Até aqui, nada do outro mundo, eu diria, nada que esteja fora dos moldes comezinhos e tradicionais em tal matéria.

Um problema a resolver, ou tão-só a controlar. Ou tão-só a contornar. Muito bem.

E devo até reconhecer que as coisas entre nós não melhoraram, nem sequer se alteraram significativamente nos últimos anos, isto é, nem com a velhice dele, primeiro, nem depois com a minha.

Nem com a circunstância de a morte dele ter acontecido há já uns pares de anos.


No Martim Moniz com o meu pai, Landscapes d'Antanho, O Homem do Saco, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

JOSÉ MIGUEL SILVA

TEATRO POLÍTICO

Para o Rui Miguel Ribeiro

Quando tudo é mentira,
a mentira torna-se invisível
como o dedo do encenador.

O pano sobe, de fumo,
e nada representa nada
nem ninguém.

Às escuras, o público sorri,
o público aplaude, julgando
seguir, entender a história.

Se um grama de verdade,
todavia, custa hoje
setecentas ilusões apodrecidas

e o preço da entrada
é suspensão da descrença,
só de fora é perceptível

o entrecho da decomposição,
com seus ritos e porquês
assinalados a vermelho:

o vinho do desejo cultivado
em bardos de necessidade,
a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.


Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

TIAGO ARAÚJO

(MISS CURTIS)


cada um escolhe o que fazer com a
sua sombra. Jenna foi encontrada pendurada numa
árvore de espécie não identificada na notícia
de jornal. foi o décimo sétimo caso em poucos meses,
numa pequena vila onde a adolescência
custa tanto a passar como em todos as outras.
os mecanismos da imitação podem explicar
o método, mas não mais essa rendição
incondicional antes do início das batalhas.
à sombra desse exército deitam-se
jovens adultos em mantas nos dias de verão.
nada disto faz sentido para nós, os mais lentos,
as desculpas de quem tem pressa em perder.

[The Times, 20.02.2010]
 
 
 
Respirar debaixo de água, Averno, Lisboa, 2013.

sábado, 21 de dezembro de 2013

RUI ÂNGELO ARAÚJO

[POR VEZES]


Por vezes não existe reciprocidade absoluta de sentimentos. Ainda que a amizade mútua seja grande, o melhor amigo de uma pessoa pode ter como melhor amigo uma terceira pessoa, que por sua vez também tem o seu próprio melhor amigo. Os sentimentos têm destes desencontros, é difícil que coincidam em grau e exclusividade, por isso os segredos se sabem, percorrem a longa cadeia das amizades, passam de melhor amigo em melhor amigo.


Os idiotas, O Lado Esquerdo Editora, Messejana, 2013.

domingo, 8 de dezembro de 2013

RUI PIRES CABRAL

STARDUST


Cidades, breves
atalhos da noite,
o desejo que eu trazia
de negar e perder
tudo: ruas e versos
a fio, amadas canções
dos mortos, a própria
razão de ser.


Stardust, Nenhures, Lisboa, 2013.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

LYRICA


terça-feira, 26 de novembro de 2013

JOSÉ MÁRIO SILVA

AVENIDA ALMIRANTE REIS


Os corpos encostados à parede
talvez recordem paisagens brancas,
um inverno ucraniano com árvores
perdidas na neve. Que outros olhos
viram estes olhos? Eu passo por eles,
eles não me vêem. Partilham a garrafa
de vinho, um pente. E a montra do café,
apagada e triste, serve-lhes de espelho.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Luz indecisa], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

domingo, 24 de novembro de 2013

A. M. PIRES CABRAL

AMORAS SEGUNDO S. FRANCISCO


Como as inquietas aves ribeirinhas,
também nós fazemos em Agosto
a nossa safra de amoras,
evitando com prudência os picos
que as dificultam e tornam cobiçadas.

Bendita sejas, irmã silva, que nos dás
as amoras e os picos.

Que de tudo se precisa nesta vida.
(Na outra, por enquanto não se sabe.)


Gaveta do fundo, Tinta da China, Lisboa, 2013.

domingo, 10 de novembro de 2013

HELDER MOURA PEREIRA

FALTA DE CARÊNCIAS


Era já noite cerrada, era o último metro
para a baixa-chiado, e eu vi, assustei-me
por ver, um homem a roçar-se encostado
a uma mulher, ou seria um homem, um
travesti, um carregador de piano?

Afinal era um assalto e eu, meses mais
tarde, vim a encontrar na ala dos castigados
o assaltante, que entretanto passara
a pronto. De que precisavam os castigados?
Precisavam de fita-cola, cola, papéis,
esferográficas. E livros. De poesia.

O pessoal gosta muito. Dá muito jeito
para pôr nas cartas, daquelas com amor
lá dentro. A ala dos castigados era a ala
dos namorados. Aquele pessoal com falta
de carências e desconfiado, por natureza.

Pobre terra minha, de euforias vãs,
cantava outro, quem me dera que tudo isto
acabe, há na minha vida muita dor,
meu amor, quem me dera ver-te
e apalpar-te até me doerem as mãos.
Seria só esse o meu negócio.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Mútuo consentimento], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

MIGUEL-MANSO

[ABRES O ALÇAPÃO, PÕES O BRAÇO]


Abres o alçapão, pões o braço lá dentro. O que retiras de lá não é o que retiras de lá, mas ocupa um lugar. É um lugar o que retiras do alçapão. Um lugar a menos


Um lugar a menos, edição do Autor, Lisboa, 2012.

domingo, 27 de outubro de 2013

RUI PIRES CABRAL

MEU AMIGO


Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.


Resumo: A poesia em 2012 [de Ladrador], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 13 de outubro de 2013

ADÍLIA LOPES

PRAZENTEIRA


Fernando pessoa escreveu
gostava de gostar de gostar
eu gosto de gostar
tenho sorte


Andar a pé, Averno, Lisboa, 2013.

domingo, 6 de outubro de 2013

MANUEL DE FREITAS

MISERY IS THE RIVER OF THE WORLD


Ecoa pelas ruas da cidade o jazz
aproximativo da Always Drinking Marching
Band. Mas esta noite Frank – a quem
os locais talvez chamem Chico ou qualquer
outro nome – não ocupa o seu lugar cativo,
junto ao número 5 da Rua do Diário dos Açores.

Tenho pena. Habituei-me à sua presença
distante. E partilhamos, afinal,
os mesmos vícios: tabaco, tristeza, álcool.
Separa-nos, caso lhe importe, o abismo do conforto.
Não tive sequer a coragem de lhe dar esmola,
gesto de que, provavelmente, nem se aperceberia.

Boa noite, Frank. Que as estrelas te iluminem
as noites ou os dias igualmente escuros e sem préstimo.


Pontas do Mar, Paralelo W, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

JOSÉ LUÍS COSTA

TERCEIRO MELÓMANO RESPONDE A MINISTRO E APROVEITA PARA REINCIDIR


«Nós temos hoje uma geração extraordinariamente bem preparada, na qual Portugal investiu muito. A nossa economia e a situação em que estamos não permitem a esses activos fantásticos terem em Portugal hoje solução para a sua vida activa. Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente positivo.»
Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares do Governo de Portugal, 
in Jornal de Negócios, 16/11/2011


– Ouve lá,
ó tu que fumas:
então e emigrar?

Pra Angola, prá Noruega, pró Qatar?

–Não emigro.

– Pra Israel, singrar como rabino?

– Não emigro.

–Prá Suécia – diz que é tão bom o ensino?

– Não emigro.

– Prá Holanda, exportar-barra-importar pepino?

– Não emigro.

– Prós Esteites, buscar cura pró albino?

– Não emigro.

Eu sou mais
pró-cá tar.

Aliás,
emigrar, um dia, só pra um destino:

país com colhões de encomendar hino
ao excelentíssimo senhor Brian Eno.


Da Madragoa a Meca, & etc, Lisboa, 2013.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ANTÓNIO RAMOS ROSA

1924-2013



domingo, 22 de setembro de 2013

RUI NUNES

[FAÇAM COM AS PALAVRAS AQUILO QUE QUISEREM]


façam com as palavras aquilo que quiserem,
desfaçam-nas:
uma palavra desfeita não magoa,
uma palavra inteira rasga a boca,
uma palavra inteira é a certeza
de outra palavra inteira, a corda fina
que vai da trave à terra, do caibro ao vento
de uma janela aberta:
a imprecisa
minúcia da poeira


Uma viagem no Outono, Relógio d'Água, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

RUI CAEIRO

[ENCONTRO EM FRIELAS UM GATO]


Encontro em Frielas um gato
de rua que me olha com desdém
Acho que sabe quem eu sou


Um gato no inferno, edição do Autor, Lisboa, 2013.

sábado, 31 de agosto de 2013

PAULO DA COSTA DOMINGOS

ESTADOS GERAIS


A palmada nas costas
acompanha a rodada paga;
o obrigado-meu-povo
com a sacanada feita;
o desencarceramento dentre
chapa em harmónio;
as harmonias entrecortadas
pela brusquidão de serras;
os prefácios, as badanas
e os tumultos das massas;
agulhas nas virilhas
para uma ligação via satélite.

Uma côdea dura no ânus
concita o sorriso partidário;
a macaca caída das árvores
durante a última ceia;
o burro que ri no hemi-
ciclo e a vaca na palha;

a santa aliança divorciada
da sagrada família.


Resumo: A poesia em 2012 [de Poemas abrasileirados], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

JOAQUIM DE BARROS FERREIRA

NAS TÍLIAS O SUSSURRO DAS ABELHAS


A brisa ia direita às tílias
onde as abelhas se enchiam de pólen.
Iam e vinham numa orgia
de bater de asas.
Na grande áurea tarde
sempre deixavam cair alguma poalha.
Falo das abelhas e do perfume das tílias
como se fosse do sabor de um livro
suspendendo-me todo.


Bestiário trasmontano e alto-duriense [de Terra adagio cantabile], org. de A. M. Pires Cabral, Grémio Literário Vila-Realense, Vila Real, 2013.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

NUNO DEMPSTER

SINAIS


Eu pressenti que estavas a faltar-me
quando te perguntei se gostarias
de regressar no Inverno
aos temporais da costa,
de rires como rias
por sob o guarda-chuva destroçado.
Falaste de humidade,
inventaste miasmas
trazidos pelo mar,
deitaste tudo fora como fazem
as mulheres em plena queda.
E eu então, que era louco por tormentas,
esqueci-as, não fosses tu fugir.
Mas de que me valeu?
Hoje encerro em palavras
a chuva, a ventania, a confusão do mar
numa folha de carta
com velhas cercaduras negras
que um dia trouxe
de casa de meus pais.


Resumo: A poesia em 2012 [de Elegias de Cronos], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 18 de agosto de 2013

MANUEL DE FREITAS

SHE LIVES BY THE CASTLE


Meu amor – assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.

Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de uma amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.

Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.

E assim, meu amor, acaba este poema.


Qui passe, for my Ladye, edição do Autor, Lisboa, 2005.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

BEATRIZ HIERRO LOPES

VERMELHO


Não sei de músicas que acalmem os pássaros, nem sei de pássaros que amanheçam no sangue ou de beijos dados no pulso para chegarem ao coração. Não sei de nada que tenha voo, cor de tempo – vermelho, sempre vermelho, como odeio vermelho –, ou de como se nasce das pedras. Muito embora tenha caminhado sobre elas, pressinta cores dentro do peito e goste de olhar muito acima da copa das árvores só pela ideia de que, ao contrário dos pássaros, as estrelas me durarão o futuro todo. E se me falam de músicas, sangue ou beijos, sorrio e fecho o rosto, porque nunca gostei do que não me durasse mais do que este instante.


É quase noite, Averno, Lisboa, 2013.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

NUNO COSTA SANTOS

ÀS VEZES É UM INSECTO QUE FAZ DISPARAR O ALARME


Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
um zumbido que detona o coração.

Às vezes é uma vírgula que tomba na frase
uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

Às vezes é um fósforo
que resplandece venturosas entradas
no dicionário dos dias.

Às vezes nem isso.

Às vezes é um sopro que revira o mundo
no ventre do tempo
como quem se prepara para uma nova vida.


Resumo: A poesia em 2012 [de Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

JORGE ROQUE

FOME SEM SENHOR

 
O poder é uma fome sem senhor. Duas mandíbulas só dentes, voracidade e estômago. Uma certeza cujo sentido é não parar de mastigar. Não devora apenas os medíocres e os fracos, importa que o entendas. Devora todos por igual.


Cão Celeste, n.º 3, Lisboa, 2013.

domingo, 14 de julho de 2013

MIGUEL MARTINS

[ERA O INVERNO DE 69]


Era o Inverno de 69.
Havia notícias como há sempre,
e suponho que fizesse frio.

A parentela acorria,
acotovelava-se ao redor da cama,
fingia estar feliz, ou talvez estivesse,
sabe Deus porquê. (Ao mesmo tempo,
abrigava-se da chuva.)


Nunca fui tão pequeno, nem tão pouco
parvo. A partir de então, industriaram-me
nas artes e ciências de estar vivo,
excepto a respiração, que é oferecida:


comer, roubar, fugir,
ser intramuros e existir na gleba,
e desistir
silenciosamente.


Sim. Foi, para mim, o Inverno dos Invernos.

E não há meio de acabar.


Resumo: A poesia em 2012 [de A metafísica das t-shirts brancas], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

sábado, 29 de junho de 2013

MANUEL DE FREITAS

BECHEROVKA


Norueguesa, alta, de um moreno
duvidoso que sorria muito.
Pedia-me insistentemente para não estar
triste como deveras estava.
E pagou-me, creio, o último copo,
antes de me perguntar "o que fazia".

Escrever, sobre a morte, não é
exactamente uma profissão.
Mas foi a resposta que lhe dei,
enquanto um guardanapo qualquer
abreviava, só para ela, a minha "obra".

Nunca saberei se percebeu a letra,
se comprou os livros, se chegou
a ouvir o que em péssimo francês
lhe tentei dizer nessa noite, a mais perdida.

Os versos são quase sempre isto: um modo
inaceitável de dizer que não tocámos o corpo
que esteve, por uma vez, tão próximo
de nós – e que nem um nome breve nos deixou.


A flor dos terramotos, Averno, Lisboa, 2005.