quarta-feira, 14 de maio de 2014

MIGUEL CARDOSO

[O QUE QUERIA]


O que queria
o que queria mesmo
era meter agulhas na boca
riscar o disco rígido do riso
e com calma
rebentar escalas de richter
no meio das planícies


Os engenhos necessários, & etc, Lisboa, 2014.

terça-feira, 29 de abril de 2014

JOÃO ALMEIDA

HEIMAT


Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia

Os bárbaros chegaram
Governam com ferro e pandemias.


As condições locais, Opera Omnia, Guimarães, 2014.

domingo, 27 de abril de 2014

VASCO GRAÇA MOURA

1942-2014



sexta-feira, 18 de abril de 2014

MANUEL DE FREITAS

ERRATA


Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.

Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.


Terra sem coroa, Teatro de Vila Real, 2007.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

JORGE FALLORCA

1949-2014


domingo, 30 de março de 2014

VASCO GRAÇA MOURA

MAIO DE 68


um belo dia em maio
de sessenta e oito, tempo
feito de equívocos,
em alfama, as vizinhas conversavam.

a roupa secava ao sol.
os filhos estavam na escola.
elas falavam dos maridos.
e comentavam luísa, a

apanhadora de malhas em meias,
com o marido fora há dez anos,
sem dar notícias. tinha havido
desordens entre quatro

homens daquele bairro, por causa
de luísa, que os
ignorou e continuava a
cuidar do filho e a

apanhar malhas, sossegadamente,
na janela do rés-do-chão,
inclinando a cabeça como
a rendilheira de vermeer.

estavam as vizinhas
nisto, deplorando
o desperdício da
juventude de luísa,

por absurda esperança e
por delicadeza
assim perdendo a vida, quando
se aproximou um estranho.

deitam-se a adivinhar.
aquele bem podia ser fernando,
marido de luísa
e alvoroçaram-se e um cão ladrou.

no beco, entre
os potes de sardinheiras
e a roupa ainda a secar,
estavam enganadas, mas

tinham razão num ponto:
era um marinheiro grego,
exausto, ainda a ofegar,
depois de uma cena de porrada

das antigas, que não tinha
nada a ver com luísa,
mas que se
chamava odisseus.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Laocoonte, rimas várias, andamentos graves], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

sexta-feira, 28 de março de 2014

NUNES DA ROCHA

[NÃO MAIS, CORAÇÃO]


Não mais, coração,
Atravesses a passadeira.
É muito o trânsito
Quando frívolo,
De sístole em desconcerto
Caminhas.
Segue pelas ruas estreitas
E, sob as sardinheiras,
Confia à arritmia
A surpresa que bate
Cada um dos dias.


Óculos escuros, fígado gordo, & etc, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 24 de março de 2014

ANTÓNIO BARAHONA

[O MERGULHADOR TOCOU O FUNDO DO FUNDO]


O mergulhador tocou o fundo do fundo:
sai-lhe sangue dos ouvidos e das narinas;
o coração esmagado sob o pêso da água
fragmenta-se; a corola das algas
coroa o seu martyrio

Oh, a embriaguês da água é maior do que a do vinho!
O afogado, antes de morrer, não se aflige:
contempla o azul esverdeado, a cintilação,
os pormenores da luz quieta no movimento,
as mãos transparentes

O mergulhador continua a descer
para lá do fundo do fundo,
onde não há fundo: só desconhecimento de si próprio
e um mêdo infinito

À medida que vai descendo
o mergulhador sobe no abysmo.


Pátria minha (2.ª edição, integral e definitiva), Averno, Lisboa, 2014.

domingo, 16 de março de 2014

RUI CAEIRO

[O SILÊNCIO DA TRAVESSA]


O silêncio da Travessa pesa às suas putas como a qualquer passante.
Também elas esperam qualquer coisa, nada de especial, uma palavra. Não necessariamente um convite. Não uma palavra de salvação, ou de violência, ou da habitual e falsa cupidez. Uma palavra simples e banal, que não queira dizer nada mas que lembre que todos fazemos parte da mesma rua inóspita, que o mesmo é dizer da mesma terra obscura.


Travessa dos Remolares, Paralelo W, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

RUI PIRES CABRAL

CIDADE DOS DESAPARECIDOS


Muitas vezes não amei Lisboa,
não soube amá-la ao anoitecer
dos dias úteis, quando era gasta,
parada e suja, e nos autocarros
quase vazios viajava de luz acesa
a entranhada tristeza do mundo
que foi a minha primeira e mais
precoce intuição. Grande cidade
dos desaparecidos, eu não tive
tantas vezes a saúde de gostar
dos teus pequenos jardins
abandonados. Quando nos cafés
já iam desligando as máquinas
e do outro lado da linha ninguém
voltava jamais a responder
como eu queria, quantas vezes
não pude achar o sítio e o sossego
para esquecer e dormir? Mesmo assim,
eu não te fiz justiça, Lisboa, quando
me deixei de ti: eu não era exemplo,
eu sempre estranhei um pouco a cama
da vida.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Longe da aldeia], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

JORGE ROQUE

A CELA


O problema não são apenas os senhores da escravatura. O problema é que os escravos se reconhecem como tal. Os senhores talvez se pudessem derrotar. Mas como vencer os muros de quem ignora a liberdade e dentro de si ergue a cela que o encerra?


Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

MIGUEL-MANSO

BALADA DA RUA DAMASCENO MONTEIRO


ardia de amor pela casa
numa confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo

afundava-se numa líquida recordação cardíaca

ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos
paixão cartografada remota
toponímia de enganos

braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz

mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo
extinta por sobre a larga extensão destruída

morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica

dentro do coração antigo
serei breve


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Contra a manhã burra], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

INÊS DIAS

[PASSOU DEMASIADO TEMPO]

"When someone is dying
there is no point in telling him about the snow."

IRIS MURDOCH

Passou demasiado tempo
desde o último fim do mundo.
Os mecanismos quebraram-se
e sobram agora marés confusas,
países de fronteiras esmaecidas.

Visto de cima, o homem
é esta matéria mínima,
insecto negro de patas para o ar,
brincando a haver deuses
que o contemplem ainda.
(A noite toda no lavatório
branco da vida,
à espera que algo desça
e lhe devolva contornos,
uma escala compreensível.)

Mas os deuses despiram Orfeu
da sua curiosidade,
dobraram sombra sobre
sombra numa cadeira
antes de fecharem a conta.

Ao fotógrafo, deixaram
apenas um travo amargo
em jeito de temperatura.


Tempos vários, Paralelo W, Lisboa, 2014.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ALBERTO PIMENTA

VEJO


vejo
a pequena suja
a brincar na rua
com os cagalhões dos cães

não digo que seja sublime mas
como tudo
não deixa de ser interessante

alguns
parecem as
galáxias
mais longínquas
ou os berços
de estrelas
Barnard 68
tudo claro
mérito dela
e das suas mãos

gostava também
de ir brincar com ela

mas
quem sou eu para isso
já nenhum poeta o faz
só uma ou outra das 4.370
inspecções-gerais da vida corrente

já nenhum poeta o faz
nem os maiores
nem os simplesmente grandes
e menos ainda os pequenos

já nenhum poeta o faz


De nada, Boca, Lisboa, 2012.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

MANUEL DE FREITAS

STRELA NEGRA

para o Rui

Sabemos, há muito tempo,
que são cada vez mais frias
as manhãs. E, no entanto,
teimas em inventar
um biombo para a morte,
um rosto de arame
que conhece os últimos porteiros.

A suave desrazão daquele
charro fez-nos perceber
subitamente tudo,
enquanto confundias
o Largo do Conde Barão
com a Praça do Rossio
e a poesia
com o corpo mais ausente.

Mas vou ter de concordar
que era alegre, demasiado alegre,
a música dos táxis nessa noite:
30 de Dezembro de 2004.


Cretcheu Futebol Clube, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

MARGARIDA FERRA

ARROIOS


Não há passeio, é uma ponte
de metal verde que nos leva
a casa. Rente ao edifício,
arrancaram as pedras
da calçada – uma a uma.
Escavaram a terra
que ficou, depois.
Os prédios (o número dezoito
e os outros pares) parecem
aguardar o transplante.
Mostram os canos
descobertos: raízes
que os ligam,
a trama subterrânea da cidade.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Curso intensivo de jardinagem], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

RUI CAEIRO

[ENTRE OUTRAS COISAS QUE OS PAIS SÃO]


Entre outras coisas que os pais são ou costumam ser, o meu pai foi, tem sido, um problema para mim. À semelhança, de resto, do que eu próprio devo ter sido, e penso que continuarei a ser, para ele: outro problema.

Até aqui, nada do outro mundo, eu diria, nada que esteja fora dos moldes comezinhos e tradicionais em tal matéria.

Um problema a resolver, ou tão-só a controlar. Ou tão-só a contornar. Muito bem.

E devo até reconhecer que as coisas entre nós não melhoraram, nem sequer se alteraram significativamente nos últimos anos, isto é, nem com a velhice dele, primeiro, nem depois com a minha.

Nem com a circunstância de a morte dele ter acontecido há já uns pares de anos.


No Martim Moniz com o meu pai, Landscapes d'Antanho, O Homem do Saco, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

JOSÉ MIGUEL SILVA

TEATRO POLÍTICO

Para o Rui Miguel Ribeiro

Quando tudo é mentira,
a mentira torna-se invisível
como o dedo do encenador.

O pano sobe, de fumo,
e nada representa nada
nem ninguém.

Às escuras, o público sorri,
o público aplaude, julgando
seguir, entender a história.

Se um grama de verdade,
todavia, custa hoje
setecentas ilusões apodrecidas

e o preço da entrada
é suspensão da descrença,
só de fora é perceptível

o entrecho da decomposição,
com seus ritos e porquês
assinalados a vermelho:

o vinho do desejo cultivado
em bardos de necessidade,
a bolha esburacada da democracia,

a corrente de facadas e suturas
a que chamamos progresso,
o beco sem saída da evolução.


Cão Celeste, n.º 4, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

TIAGO ARAÚJO

(MISS CURTIS)


cada um escolhe o que fazer com a
sua sombra. Jenna foi encontrada pendurada numa
árvore de espécie não identificada na notícia
de jornal. foi o décimo sétimo caso em poucos meses,
numa pequena vila onde a adolescência
custa tanto a passar como em todos as outras.
os mecanismos da imitação podem explicar
o método, mas não mais essa rendição
incondicional antes do início das batalhas.
à sombra desse exército deitam-se
jovens adultos em mantas nos dias de verão.
nada disto faz sentido para nós, os mais lentos,
as desculpas de quem tem pressa em perder.

[The Times, 20.02.2010]
 
 
 
Respirar debaixo de água, Averno, Lisboa, 2013.

sábado, 21 de dezembro de 2013

RUI ÂNGELO ARAÚJO

[POR VEZES]


Por vezes não existe reciprocidade absoluta de sentimentos. Ainda que a amizade mútua seja grande, o melhor amigo de uma pessoa pode ter como melhor amigo uma terceira pessoa, que por sua vez também tem o seu próprio melhor amigo. Os sentimentos têm destes desencontros, é difícil que coincidam em grau e exclusividade, por isso os segredos se sabem, percorrem a longa cadeia das amizades, passam de melhor amigo em melhor amigo.


Os idiotas, O Lado Esquerdo Editora, Messejana, 2013.

domingo, 8 de dezembro de 2013

RUI PIRES CABRAL

STARDUST


Cidades, breves
atalhos da noite,
o desejo que eu trazia
de negar e perder
tudo: ruas e versos
a fio, amadas canções
dos mortos, a própria
razão de ser.


Stardust, Nenhures, Lisboa, 2013.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

LYRICA


terça-feira, 26 de novembro de 2013

JOSÉ MÁRIO SILVA

AVENIDA ALMIRANTE REIS


Os corpos encostados à parede
talvez recordem paisagens brancas,
um inverno ucraniano com árvores
perdidas na neve. Que outros olhos
viram estes olhos? Eu passo por eles,
eles não me vêem. Partilham a garrafa
de vinho, um pente. E a montra do café,
apagada e triste, serve-lhes de espelho.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Luz indecisa], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

domingo, 24 de novembro de 2013

A. M. PIRES CABRAL

AMORAS SEGUNDO S. FRANCISCO


Como as inquietas aves ribeirinhas,
também nós fazemos em Agosto
a nossa safra de amoras,
evitando com prudência os picos
que as dificultam e tornam cobiçadas.

Bendita sejas, irmã silva, que nos dás
as amoras e os picos.

Que de tudo se precisa nesta vida.
(Na outra, por enquanto não se sabe.)


Gaveta do fundo, Tinta da China, Lisboa, 2013.

domingo, 10 de novembro de 2013

HELDER MOURA PEREIRA

FALTA DE CARÊNCIAS


Era já noite cerrada, era o último metro
para a baixa-chiado, e eu vi, assustei-me
por ver, um homem a roçar-se encostado
a uma mulher, ou seria um homem, um
travesti, um carregador de piano?

Afinal era um assalto e eu, meses mais
tarde, vim a encontrar na ala dos castigados
o assaltante, que entretanto passara
a pronto. De que precisavam os castigados?
Precisavam de fita-cola, cola, papéis,
esferográficas. E livros. De poesia.

O pessoal gosta muito. Dá muito jeito
para pôr nas cartas, daquelas com amor
lá dentro. A ala dos castigados era a ala
dos namorados. Aquele pessoal com falta
de carências e desconfiado, por natureza.

Pobre terra minha, de euforias vãs,
cantava outro, quem me dera que tudo isto
acabe, há na minha vida muita dor,
meu amor, quem me dera ver-te
e apalpar-te até me doerem as mãos.
Seria só esse o meu negócio.


Em Lisboa, sobre o mar: Poesia 2001-2010 [de Mútuo consentimento], org. de Ana Isabel Queiroz, Luís Maia Varela e Maria Luísa Costa, Fabula Urbis, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

MIGUEL-MANSO

[ABRES O ALÇAPÃO, PÕES O BRAÇO]


Abres o alçapão, pões o braço lá dentro. O que retiras de lá não é o que retiras de lá, mas ocupa um lugar. É um lugar o que retiras do alçapão. Um lugar a menos


Um lugar a menos, edição do Autor, Lisboa, 2012.

domingo, 27 de outubro de 2013

RUI PIRES CABRAL

MEU AMIGO


Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.


Resumo: A poesia em 2012 [de Ladrador], org. de Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas, Documenta/Fnac, Lisboa, 2013.

domingo, 13 de outubro de 2013

ADÍLIA LOPES

PRAZENTEIRA


Fernando pessoa escreveu
gostava de gostar de gostar
eu gosto de gostar
tenho sorte


Andar a pé, Averno, Lisboa, 2013.

domingo, 6 de outubro de 2013

MANUEL DE FREITAS

MISERY IS THE RIVER OF THE WORLD


Ecoa pelas ruas da cidade o jazz
aproximativo da Always Drinking Marching
Band. Mas esta noite Frank – a quem
os locais talvez chamem Chico ou qualquer
outro nome – não ocupa o seu lugar cativo,
junto ao número 5 da Rua do Diário dos Açores.

Tenho pena. Habituei-me à sua presença
distante. E partilhamos, afinal,
os mesmos vícios: tabaco, tristeza, álcool.
Separa-nos, caso lhe importe, o abismo do conforto.
Não tive sequer a coragem de lhe dar esmola,
gesto de que, provavelmente, nem se aperceberia.

Boa noite, Frank. Que as estrelas te iluminem
as noites ou os dias igualmente escuros e sem préstimo.


Pontas do Mar, Paralelo W, Lisboa, 2013.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

JOSÉ LUÍS COSTA

TERCEIRO MELÓMANO RESPONDE A MINISTRO E APROVEITA PARA REINCIDIR


«Nós temos hoje uma geração extraordinariamente bem preparada, na qual Portugal investiu muito. A nossa economia e a situação em que estamos não permitem a esses activos fantásticos terem em Portugal hoje solução para a sua vida activa. Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente positivo.»
Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares do Governo de Portugal, 
in Jornal de Negócios, 16/11/2011


– Ouve lá,
ó tu que fumas:
então e emigrar?

Pra Angola, prá Noruega, pró Qatar?

–Não emigro.

– Pra Israel, singrar como rabino?

– Não emigro.

–Prá Suécia – diz que é tão bom o ensino?

– Não emigro.

– Prá Holanda, exportar-barra-importar pepino?

– Não emigro.

– Prós Esteites, buscar cura pró albino?

– Não emigro.

Eu sou mais
pró-cá tar.

Aliás,
emigrar, um dia, só pra um destino:

país com colhões de encomendar hino
ao excelentíssimo senhor Brian Eno.


Da Madragoa a Meca, & etc, Lisboa, 2013.