quinta-feira, 8 de outubro de 2015

RUI PIRES CABRAL

IV. AVANT-DERNIÈRES PENSÉES 3


Basta de elegias às cidades brancas
do fim do Verão. As luzes secaram
dentro das palavras, já nada
as instiga – e que importa, afinal?

Seja como for, tive pouca fé
e más companhias do melhor que há:
amores viajantes, livros emprestados
(tudo é emprestado, se formos a ver),

amigos seguros e outros que o não
foram, nem tinham de ser. Uma coisa
é certa: a hora passou e os versos
murcharam. Deixai-os morrer.


Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

MIGUEL MARTINS

[HÁ POETAS ASSIM]


Há poetas assim,
uns gramas de aletria, fina e doce,
traficados como se fossem cocaína pura.
Alimento energético, é certo,
adequado ao passo de galope
com que esperam chegar a algum lado
e, ao mesmo tempo, agradável ao olfacto
de quem nunca suou, nem sequer a foder.

Massa e açúcar, como disse, muito,
mas também o leitinho da infância,
um toque exótico a canela do Ceilão
e o ingrediente secreto,
que pode ser qualquer coisa
e dizem as más línguas que é apenas
uma irreprimível vontade de parecer interessante.

Sim, há poemas que só se assemelham
ao remate perfeito de uma consoada vulgar,
antes de cada um regressar a casa,
maldizer a família e dar início
à gestação de umas saudades nobres,
que aguardarão um ano pela matança.

Melhor dizendo, parecem-se com tudo
menos com poesia, essa grainha
de uva alojada na cárie de um molar,
que há que suportar só com morte interior,
porque essas coisas acontecem sempre
quando todos os dentistas se mascaram de renas
e vão passar uns dias à puta que os pariu.

Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

domingo, 27 de setembro de 2015

HELDER MOURA PEREIRA

[EU NÃO TINHA NADA DE FELINO, TU SABIAS]


Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.


Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

VITOR SILVA TAVARES

1937-2015


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A. M. PIRES CABRAL

EPÍGRAFE


Se algum dia alguém chegar a ler
este dizer agreste,
provavelmente pensará: que pálida lanterna;
não é deste metal que a luz é feita.

Calma. Pois não.

Mas quem assiduamente
visita os desvãos onde a noite se acoita
não precisa de mais que o clarão desta treva,
desta cegueira sem cão e sem bengala,
para no escuro rasgar o seu caminho
e nele ir progredindo às arrecuas.


A noite em que a noite ardeu, Cotovia, Lisboa, 2015.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

EMANUEL JORGE BOTELHO

ANOTAÇÃO, PREMONITÓRIA, PARA O POUCO ANTES


a última palavra que se diz
é a última vez que se entra em casa.


Fecho as cortinas e espero, Averno, Lisboa, 2014.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

ANA HATHERLY

(1929-2015)


quinta-feira, 25 de junho de 2015

MIGUEL CARDOSO

MUITO DEPOIS DOS DIAS E DAS ESTAÇÕES E DOS SERES E DOS PAÍZES


Há maneiras de usar isto em nosso proveito
e acordar
em tons de verde, rijos de ossos
mas nus
velhos e fulvos

e gastar metade do fôlego
a lavar os dentes,
voltando ao início

e pensar: isto

no tempo em que vai e vem
mais um destes outonos

isto vai

É certo que me sabia bem
um daqueles verdadeiros inícios

Mas chapinhar também é bom


[...]


À barbárie seguem-se os estendais, & etc, Lisboa, 2015.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

MANUEL DE FREITAS

O RAPAZ DA CAMISOLA

para o Manolo

O rapaz da camisola era espanhol e tinha
a minha idade (fumámos juntos
alguns charros, se é que isso vos interessa).
Estava lá, no dia em que finalmente
comprou a t-shirt do bar onde julgava
encontrar amigos, rebaixas de amor e música.
Deixou-me então uns discos, o sorriso
de sempre, truques de Pradera que incertamente
o reconduziam ao volante do pai e à
infância que passou, nos arredores de Cáceres.

Tinha vindo trabalhar, por poucos meses.
Não ganhava mal e eu, sem nunca
o dizer, talvez perdesse ainda melhor. Mas apaixonou-se
pela cidade (eu entendo). Morava na Graça,
sorria de facto muito, tornava mais próximos e comuns
os amigos que não tenho. A Ibéria, a desoras,
parecia subitamente possível – embora
a rapariga, loura, insistisse em dizer que não.

São tristes aqueles que partem e reduzem Lisboa
à vaga rotina dos escombros, ao despovoamento
dos afectos. Talvez um dia o rapaz da camisola
me telefone para que falemos de tudo
menos de poesia. Para já, gostava de lhe dedicar
um poema melhor, sem custos alfandegários, simples
como os copos que nos encostaram juntos ao balcão.


Sunny Bar, sel. de Rui Pires Cabral, Alambique, Lisboa, 2015.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

NUNO MOURA

[O MEU AMOR?]


O meu amor?
Nunca usei
tenho para lá
aquilo novo


Carimbos & Tatuagens, Lda., Debout Sur l'Oeuf, Coimbra, 2014.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

PAULO DA COSTA DOMINGOS

O VERÃO PARTIU...


O Verão partiu
E nunca devia ter vindo.
Quente foi o sol
Mas não pode ser só isto.

Tudo veio para partir,
Em minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.

Nenhum mal se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À clara luz tudo arde
Mas não pode ser só isto.

A vida me prende
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.

Nem uma folha se consumiu
Nem uma vara quebrada...
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto.


A morte dos outros, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2014.

terça-feira, 26 de maio de 2015

ANTÓNIO BARAHONA

ERA UMA VEZ EU


Era uma vez
Eu nu e cintilante
prostrado ante a Magnífica
Mulher Mágica
Eu num submarino
a percorrer-me as veias
Eu a chicotear um cavalo sem pernas
Eu a partir ostras ao centro do pátio
Eu a separar a treva do vidro
Eu amestrando um exército de formigas brancas
Eu no fundo de uma cratera
a escrever o poema diligente do Sol


Pássaro-Lyra, Averno, Lisboa, 2015.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

JOSÉ MANUEL TEIXEIRA DA SILVA

ÀS ESCURAS


Seria a primitiva luz
das casas a mais antiga
Conhecíamos os caminhos
pelo baque da noite
um sopro tão retirado do mundo

O tempo demove as moradas do tempo
e no mais derradeiro olhar
já não saber como perder-te
essa súbita porta do dia
algo assim, às escuras

Música de anónimo, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2015.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

ALBERTO PIMENTA

A CADÊNCIA DOS BICHINHOS DE CONTA


os bichinhos do ouvido
fazem de conta que escutam
o que os bichinhos de conta
fazem de conta que contam

assim tudo corre bem
para uns e para outros
nem uns dizem que são mudos
nem os outros que são moucos


Bestiário lusitano, 2.ª edição, Momo, Lisboa, 2014.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

DO QUE ME LEMBRO


Lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo

Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite

Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo


A noite abre meus olhos [poesia reunida], 3.ª edição, Assírio & Alvim, Lisboa, 2014.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

DAVID TELES PEREIRA

BOZE IGRZYSKO


Contam que é o reino mais frio da terra.
Biblioteca de pretéritos em vermelho-mudo
sob os longos olhares de uma sereia esquecida,
ferida no crepúsculo deste morder invernal.

Diz-se por aqui que a verdadeira igualdade
mora no cemitério e hoje o meu corpo dorme
por todas as pedras, com o círculo quebrado
da bem ordenada coroa. Que poder tão inútil,
cinco soberanos incapazes de falar a verdade:
nos dedos uma folhagem de astros, mas na boca
o sabor negro e persistente desta história inabitável.

Contam que é o reino mais frio da terra
e é bem possível que o seja.
Como aquela palavra, a mais perfeita,
uma sílaba de lábios abertos para a névoa
e um toque de língua no tecto da voz.
Daqui nunca ninguém saiu vivo a não ser em sonhos
e, claro, como sempre se ouviu,
não é saudável engolir mortos sem os mastigar primeiro.


AA. VV., Quarto de hóspedes, Língua Morta, Lisboa, 2013.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

RUI CAEIRO

TUBARÕES


Há nos mares cerca de trezentas espécies diferentes
todas devidamente armadas com os mesmos dentes
(sobre o que se passa em terra não há estatísticas)


Deus e outros animais, Averno, Lisboa, 2015.

domingo, 12 de abril de 2015

A. M. PIRES CABRAL

O POETA


[...]

O Poeta parecia finalmente mergulhado em paz interior, arduamente conquistada. Os seus lábios, ainda enamorados do verbo, não cessavam de mover-se: saboreava desse modo, imaginei eu, a doce acalmia que sobrevém a um parto bem-sucedido. Eu olhava embevecido e via naquele mover de lábios o sorriso cansado de uma puérpera que repousa no leito já com o recém-nascido nos braços. Coisa bonita de ver.

De súbito, os seus lábios começaram a mover-se mais depressa, com maior amplitude. "Vem aí outro poema!", pensei, excitado. "Eis que a força criadora se apossa de novo daquele espírito atormentado na perseguição do Belo." Temendo que se pusesse a levitar, senti-me tentado a segurá-lo por um braço, recomendar-lhe contenção, que estava num lugar público. Só não o fiz porque num sum dignus.

[...]

A navalha de Palaçoulo, Cotovia, Lisboa, 2015.

terça-feira, 31 de março de 2015

MANUEL DE FREITAS

[EU PERCEBO, CLARO, QUE NÃO ME COMPREENDAS]


Eu percebo, claro, que não me compreendas. Há um momento em que ficamos completamente sós com os nossos fantasmas. E não há, disso, amor algum que nos salve. Constatamos, em silêncio, que tudo desabou. 

Mas o que eu não queria, de todo, era fazer literatura desta casa.Devo-lhe demasiadas memórias, pensei muitas vezes na sua provável ruína. Saber que é agora «minha» representa um acréscimo de dor e de responsabilidade.

Tem-me ajudado, reconheço, trazer aqui amigos, e partilhar com eles o impartilhável. Pois é-lhes difícil adivinhar quantas recordações estão associadas a uma fotografia aparentemente banal, a uma jarra coberta de pó ou ao velho gira-discos do meu pai.


Ah, vous dirai-je, Maman, edição do Autor (fora do mercado), Lisboa, 2015.

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER

1930-2015


domingo, 15 de março de 2015

RUI PIRES CABRAL

MEU AMIGO


Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.


Morada, Assírio & Alvim, Lisboa, 2015.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

RUI BAIÃO

[JUNTO AO PARQUE, ENTRE SEBES]


Junto ao parque, entre sebes –
o túmulo do tumulto. Baga prenhe
entre maciços e culpas. Como se pinta
a Pintura? – a crude enraivecido e esmeril
de noivado, onde a falsa moral fosse
o repouso no ninho, a não exclusão. Como se escreve
a Escrita? – de mãos atadas, sem olhos que
a vissem morrer, aí à furna. De morte
em morte, como um relâmpago de pressa
diz ao uivo. Como se vive desta Morte?
– de precária coincidência, como prova
de silêncio ao fruir, ou o que atordoa o mundo
quando os dardos. Muitos dardos, dirigidos
fossem a esse favo, pior que a noite.


Insane, Averno, Lisboa, 2014.

sábado, 31 de janeiro de 2015

ANTÓNIO GREGÓRIO

[A BEATRIZ]


A Beatriz não mais deixou de vir, inicialmente experimentadora de frequências, uma vinda por semana, duas vindas por semana, até à média do dia sim dia não e de costume pós-prandial, uns dias airosa e gaiteira e outros sombria porque nem sempre acordamos para o mesmo lado, não é?

[...]


O condómino, Língua Morta, Lisboa, 2014.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

JORGE ROQUE

AS PALAVRAS


A princípio somos nós que queremos as palavras, que elas se entregassem era o nosso desejo mais fundo, o mundo tornar-se-ia completo e a vida revelar-se-ia no seu rosto pleno. Mas nada acontece como pensamos. Sucedem-se anos de lutas, cansaços, vitórias pequenas, críticas razoáveis nos jornais, amigos que dizem que gostam e nós sabemos que não assim tanto, estão a ser amáveis e devemos do coração agradecer-lhes, porque gostarem de nós vale muito mais do que tudo o que escrevemos, embora isto seja apenas o começo da aprendizagem. Eis que algo inesperadamente se altera, tão inesperado que só nos damos conta depois, são agora as palavras que nos querem, elas mesmas que se entregam, de certo modo estendendo-nos o que sempre desejámos, tão diferente afinal, tão sem sorte, olhado do tempo que passou. Chamam-nos, puxam-nos, insaciáveis não nos largam, e nós vamos, vamos, no lugar a que chegámos quase nada nos chama e nós pouco queremos ouvir, que havemos de fazer senão ir, ir, mesmo que não haja brilho, mesmo que não haja esperança, e o jogo só possa terminar com a derrota do único jogador. E é isso que repetem os braços caídos com que seguimos, seguimos, sabendo que o mundo só fica cada vez mais gasto e a vida, rosto pobre que enfim olhamos nos olhos, já só nos mostra a nossa morte, os ossos salientes sobre a pele baça, a testa cada vez mais alta, a cara que teremos quando formos velhos, a nossa, exacta.


Nu contra nu, Averno, Lisboa, 2014.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[QUER-SE UM POUCO]


Quer-se um pouco
de sossego. Uma latada. Eu explico:
vinho em suspensão.

Os animais domésticos chegam-se
à prometida sombra
para os diálogos imaginários
e o afago do pêlo. No seu mundo
de (eventual) violência
o fascismo do capital mantém-lhes
a ortografia intacta, inequívoca
a fonética. E o vinho
não é metáfora lá onde
talvez um deus queira

impor a culpa.


«Voici la poésie ce matin et pour la prose il y a les journaux», Averno, Lisboa, 2014.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

MARIA DA CONCEIÇÃO CALEIRO

[THE FIRST DAY A GIRL DIES]


[...]

The first day a girl dies
No primeiro dia em que uma rapariga morre, talvez ela se tenha lembrado da verdade
Com a sua cabeça esvaziada

No segundo dia em que uma rapariga morre
Com as suas pernas decepadas
Talvez tivesse chegado perto da verdade

No terceiro dia em que uma rapariga morre
Com as suas orelhas cortadas
Talvez tivesse ouvido a verdade

No quarto dia em que uma rapariga morre
Com os olhos arrancados
Talvez tivesse visto a verdade

No quinto dia em que uma rapariga morre
Com a sua língua sacada
Talvez tivesse falado a verdade

No sexto dia em que uma rapariga morre
Com as suas mãos desfeitas
Talvez tivesse escrito a verdade

No sétimo dia uma rapariga
Is going to die

[...]


Too much, Alambique, Lisboa, 2014.

domingo, 19 de outubro de 2014

INÊS DIAS

PONTO SOMBRA

Para o Barnabé,
primeiro e único

Um nó cego no bordado
da manhã. E a ternura
interrompida pelo desfazer
dos dias até esse olhar
depois de tudo,
onde aguardava,
cauda de fora, a morte:

passar sob a pele
(uma dor mais antiga)
a linha que já
não nos prende,
cortá-la com o último beijo,
rematar um coração
cada vez mais do avesso.


Da capo, Averno, Lisboa, 2014.

MANUEL DE FREITAS

MARTINI


Insistimos num facto,
aviltante como nós
– ou talvez por isso.
Não sei se será bem
um facto, isto
que me fez seguir-te,
embora o meu caminho
fosse de facto aquele:

a paragem do 42,
que me traz como sempre
a casa, ao sítio do costume,
cercado de livros, paredes
e vizinhos. Queres coisa
mais banal? Talvez
este coração azul,

a tinta em que escrevo
que são seis horas da manhã
e que os cigarros começam
a saber-me mal (o Martini
não, valha-me isso, ao
menos – que pouco é
mas para nada serve).


Inês Dias [de Game over], Nigredo, Lisboa, 2014.

domingo, 28 de setembro de 2014

JOÃO ALMEIDA

CARTA DE EL PASO


Perdeste por pura estupidez
As palavras entravam-te na cabeça como nevoeiro
E por lá ficavam em nevoeiro
E também por falta de espinha
Pra não dizer outra coisa.

Gostas de vir com o Stonebreaker
Do miúdo absorto como um pesadelo
À luz do dia
Martelando pedra a pedra
Sem a possibilidade de fumar um cigarro na descida.

Devias estar mais atento ao louco
Que não vias atrás de ti
De navalha aberta. Agora não sei que te diga.

Respondes que estás bem embora tenhas dito a verdade
No que diz respeito à pornografia
Ou que a poesia já te deu melhores dias.

Ouve, esquece o puto a partir pedras
Ou então mete-te na droga.

Quanto à questão dos versos
Lembra-te da rapariga silvestre
E da outra que chupava kalipos inocente
Disposta a muito.

Digo isto porque estás a ficar muito pálido.
Em El Paso se quiseres
Podes abancar em minha casa, comes do que houver.
Fode-se e morre-se bastante por cá.


Telhados de Vidro, n.º 19, Averno, Lisboa, 2014.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

ARMANDO SILVA CARVALHO

[PELA CORDA FRÁGIL]


Pela corda frágil
das palavras
as mãos impacientes destes versos
descem
com um cuidado de dominicano
ao entrar na missa.
O domingo da vida veio ao meu encontro.
E eu deito-me nas pedras,
obediente
ao fogo.
Um cão. Um cão de deus.
E que não larga
nunca
as calças de Caeiro.


Verbo: Deus como interrogação na poesia portuguesa (org. de José Tolentino Mendonça e Pedro Mexia), Assírio & Alvim, Lisboa, 2014.