quarta-feira, 8 de junho de 2016

INÊS DIAS

JOAQUIM E JUDITE

Para o Manuel

Fizera toda a viagem com ele ao colo.

Queria despedir-se junto ao mar,
mas as partidas são tão imperfeitas
se o coração é uma caixa de cinzas
demasiado enferrujada para abrir
ao vento. Mesmo agora, depois de lavada
a última partícula que se lhe colara
à pele, sabia que o amor passara a ter
o peso exacto das ondas e, por isso,
nunca mais deixaria de o ouvir.

E ria, apontando-nos mais um turista
à procura das marcas do milagre
na pedra. Como se não fosse milagre
suficiente cada volta do mar: sermos
ainda reconhecidos, sete passos
dentro da noite, quando andamos
pelo mundo a povoá-lo de fantasmas.


Sítio (com Manuel de Freitas), Volta d'Mar, Nazaré, 2016.

domingo, 5 de junho de 2016

MANUEL DE FREITAS

SÍTIO DA NAZARÉ, 1979


Não tenho a certeza do nome da senhora (que talvez se chamasse Maria Augusta) a quem os meus avós alugavam casa no Sítio, mas sei que era inequivocamente cigana e que a casa ficava mesmo ao lado da praça de touros. Eu dormia no corredor, numa cama minúscula escondida por reposteiros. Os avós entretanto morreram, e a minha mãe optou pelo campismo selvagem nos pinhais em volta, antes de se render ao fascínio terapêutico da praia da Consolação.

Desconheço se devo a essas remotas experiências a tristeza que ainda hoje associo ao Sítio. Mas parece-me evidente que a minha poesia evoluiu (se é que evoluiu) num sentido exactamente contrário: passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém.


Sítio (com Inês Dias), Volta d'Mar, Nazaré, 2016.

domingo, 22 de maio de 2016

CARLOS NOGUEIRA

[ANDAVA UM HOMEM]


andava um homem à procura de si
quando reparou que as searas tinham sido incendiadas
o mar se desregulara
e o sol ardia de outra maneira
com as mãos que pôde dedicou-se a juntar pedras
e o que restava
a construir uma casa geométrica com abertura para cima
no sentido ao contrário da paisagem e das casas
que até então conhecera

com a luz que ainda havia
fez-lhe chão


Textos de trabalho, Averno, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

RUI PIRES CABRAL

THE STRANGER SONG


Ele quis dizer-te agarra
a noite e não pudeste
contentá-lo. Agora
é tarde. Cai uma nódoa
na parede, na camisa

do poema. És acossado
pelo fim que consentiste
e pela sombra da razão
que não tiveste. Olhas
em volta

e só não vês o que aí está
se não quiseres perder de vez
a ilusão de uma saída.
Nos arredores, a luz
é torpe, o verso

inquina. Não há
comboio a estas horas
que te leve ao outro lado
onde te espera, por engano,
a tua vida.

A mil braças de profundidade, AA. VV., Eclusa, Lisboa, 2016.

terça-feira, 17 de maio de 2016

RUI BAIÃO

[CERTO INÚTIL VIRAR DE COSTAS]


Certo inútil virar de costas.
Proibido, o sul todo. Azul
da queima, milhares de teias.
Sei o que vale na boca, a seta
certa. Doente ulterior à cobrição.
Tal o azar, nunca te disse.

Noizz, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2016.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

RUI CAEIRO

[E AGORA, POR FAVOR, DEITE-SE NESTA CADEIRA]


E agora, por favor, deite-se nesta cadeira. Quer mais chegado para trás? Está bem assim? As pernas, estão confortáveis? Qual a mão que prefere espetar, a esquerda ou a direita? E vá, agora é só trocar o seu sangue por este líquido incolor e indolor de glóbulos químicos. Chute (do verbo chutar), chute para a veia. Durante as próximas horas, curta (do verbo curtir). Faça de conta que lhe saiu na rifa uma viagem à Meia-Laranja. Quer uma revista para ler? Quer a Lux, quer a Caras?


Sala de Chuto, edição do Autor, Lisboa, 2015.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

LUÍS FILIPE CASTRO MENDES

REGRESSO


Já voltei a casa, as portas rangem,
o pó tomou conta de todos os móveis,
deixando-me de pé, a balançar as chaves,
e a interrogar-me sobre o que não fiz.

O tempo que resta não é para confissões
nem para ajustes de contas:
pois quem guarda o guardião, quem despe a roupa
das vestais do templo?
A água corre ainda, um fio sequer, de torneiras
em desuso. Respiro e não deixo de olhar.
Até ao fim não deixarei de olhar.

Que trabalho é este, oculta e extinta miséria
sob os nossos passos?
As janelas com os vidros quebrados, o plástico
por cima dos horizontes perdidos
da transparência. Porque insistes? Porque ficas
à entrada da casa, perdido no olhar
e na memória do que nunca chegou a ser?


Outro Ulisses regressa a casa, Assírio & Alvim, Lisboa, 2016. 

sábado, 9 de abril de 2016

JORGE ROQUE

QUATRO MUROS


Vinte e dois dias de férias, fins-de-semana, feriados, e vida nenhuma para ser a vida do escritor que seria, pelo menos de acordo com o funcionário que pontual pica o ponto, sem braço nem manguito a opor ao avanço da horda liberal.

Ó brilhante aluno que trocou ciências por letras quando ninguém esperava e, bem se sabia, letras são tretas com as quais nem os anjos se governam, quanto mais ele que em vez de asas tinha dores nas costas e, longe do paraíso, contas e impostos a pagar num torpe arrabalde dominado por espertos e caciques.

Ó promissor escritor a ficar fora de validade, passam os anos, passam os livros magros, esforçados, passa a indiferença que em torno deles se abate, a tua realidade são estas quatro horas por noite, estes quatro muros fechados, este quarto de vida roubado ao cansaço, ao tempo de sono, ao convívio com os outros, à alegria de escrever até. Um amador esforçado, um diletante sem meios de o ser, é isso que és. Um parvo, em suma. Ou, no melhor dos casos, um equivocado.

Deito vinho no copo, acendo um cigarro, releio o que escrevi. Não, nada há de errado, está tudo certo. Esta a vida real do escritor que sou, nas quatro horas, nos quatro muros, que me delimitam. Mais não há e, com solução ou sem, não é equívoco.


Cão Celeste, n.º 8, Lisboa, 2015.

domingo, 27 de março de 2016

RUI ÂNGELO ARAÚJO

[HÁ NAS QUINTAS DO DOURO]


Há nas quintas do Douro uma aragem de aristocracia, de ambiente de corte – vence-nos ali a indolência e a frivolidade sem era nem pressa da classe dominadora –, mas a madrinha só com fórceps poderia ter nascido para aquele mundo. O casarão dela destoaria nas margens do rio, seria o contraponto sinistro da arquitectura luminosa e diáfana que ali marca a paisagem. Não que a casa dela fosse muito diferente daquelas, ou que a madrinha nas velhas fotografias mostrasse um ar mais austero e severo do que o que apresentara nas suas a D. Antónia Adelaide Ferreira. A madrinha, pelo aspecto nas fotos antigas, poderia ser uma proprietária duriense, e a sua casa uma quinta entre vinhedos, mas quem a conhecesse não escreveria monografias hagiográficas, nem haveria colheitas com o seu nome, rótulos com o seu semblante. O seu vinho haveria de saber ao sangue azedado esquecido em pipas nas caves do castelo de Drácula e a casa pareceria o assento baronial que inspirou Branquinho da Fonseca.


A origem do ódio: Crónica de um retiro sentimental, Língua Morta, Lisboa, 2015.

quinta-feira, 24 de março de 2016

INÊS LOURENÇO

PRÉSTIMO


Um gato não serve realmente
para nada, vão quase seis séculos
desde o tempo das caravelas
onde embarcou com os marítimos para
extermínio dos roedores que
infestavam o porão das naus. Agora
só o dorso oferece às carícias
ou ao regaço o peso
do pequeno corpo, ronronando
a grata beleza de existir.


O segundo olhar: poemas escolhidos [org. de José Manuel Teixeira da Silva], Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2015.

quarta-feira, 2 de março de 2016

MIGUEL MARTINS

[UM APICULTOR ATRAVESSA A CHARNECA, MUNIDO]


Um apicultor atravessa a charneca, munido
da sua parafernália característica. Alto,
esguio, dando-se o tempo que só a reforma
permite. É Sherlock Holmes, um cavalheiro
que nunca viveu e, contudo, nunca morrerá.
Imagino-me a seu lado, raro confidente
de quanto não ficou escrito e das ciências
de que não sabe tudo, mas apenas muito.
É óbvio que é, apenas, imaginação – seria
um anacronismo e isto é, tão-só, escrita
criativa, pequena prosa versificada,
desenfastio de um privilegiado que não sabe
aguardar o almoço ou conciliar o sono.


Cadávares esquisitos, Do Lado Esquerdo, Coimbra, 2015.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

JOSÉ CARLOS SOARES

[AO RELENTO DORMEM]


Ao relento dormem
as palavras

com os pés voltados
ao vazio. Só as mãos

dos que cortaram
as árvores
sabem como pode o inverno
arrefecê-las.


Igor Dgah, DSO, Coimbra, 2014.

domingo, 31 de janeiro de 2016

ANTÓNIO BARAHONA

VOZES


Voz de Camões na minha voz mistura
frases tão simples repetidas, hora a hora,
e enquadradas, verso a verso, na medida
de sonetos de voz perfeitamente pura

E também de Pessanha a voz infiltra
na minha voz a compleição sonora
e ainda a Quental sou devedor da técnica
de retratar a alma com esquadria

Na minha voz há ecos de tom íntimo,
poetas a falar, aberto o peito ao sôpro
e santos d'olhos postos no som mystico

Na minha voz há morte acumulada
e a minha própria vida é já matada
que só porque vos vi, minha Senhora.


Noite do meu Inverno, Averno, Lisboa, 2016.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

ADÍLIA LOPES

BIGGER THAN LIFE


Nada é maior
do que a vida


Capilé, Averno, Lisboa, 2016.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

ARMANDO SILVA CARVALHO

QUADRA


A erudita fala dos poemas lentos
A escura idade dos olhares perversos
A clara noite dos santos eruditos
O eco obscuro dos preclaros versos


O que foi passado a limpo [de Sol a Sol], Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

CRÓNICA


Uma gripe que se arrasta,
um jantar que ficou azedo,
uma lembrança por enganosa,
um empenho que não vale o que custa.
Para outra altura fica o resumo
dos milagres, o relato dos prodígios,
a prova derradeira da falência dos humores.

Agora, mais do que antes, os artistas
têm pressa e o demiurgo acordou;
o espírito afundou-se nas águas.
Amanhã, quem acordar cedo terá
mais tempo para se arrepender.


Como se nada fosse, Assírio & Alvim, Lisboa, 2015.

domingo, 13 de dezembro de 2015

LUIS MANUEL GASPAR

[NADA PODERÁ TRAZER UM NAVIO DE VOLTA]

[...]

Nada poderá trazer um navio de volta
a este porto prometido às trevas
e ao visco.
No jardim que deixámos para trás
(e lembra hoje uma única teia de tamiça e estopa)
cresceram as luzes da visitação

Não seguimos o rio, não iremos juntos.
Só damos de nós o que jamais
poderão ver

[...]


Lvminaria, 2.ª edição, revista, Alambique, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[ERA UM PAÍS, UM CORPO]


Era um país, um corpo,
uma cidade de ossos
calcinados, onde nem cães
metiam o dente.

E o corpo é um cristal lívido
no centro d'uma praça, deportado,
límpido, onde nem os homens
se atrevem.

A cidade aposta-se toda
na espessura do sono, na
candura banal, vulgar,

do país em ruína:
impaciente.


Cal, Averno, Lisboa, 2015.

sábado, 28 de novembro de 2015

ISABEL NOGUEIRA

[TIROU DO BOLSO O CANIVETE]


Tirou do bolso o canivete que a mãe lhe oferecera aos seis anos.
Acto naturalmente impróprio, a respeito do qual seria desnecessário
ajuizar.
Abriu-o, passou ao de leve os dedos pela lâmina, e descascou a maçã.

Os olhos nunca saíam do barco. Nem do mar.
A prática fazia-o retirar a casca à fruta sem necessidade de olhar.
Era tudo uma questão de hábito e de motricidade fina.


Peso pluma, Paralelo W, Lisboa, 2015.

domingo, 8 de novembro de 2015

A. M. PIRES CABRAL

[VOCÊ ENTENDE, CASTEL?]


— Você entende, Castel? Isto significa que há de facto uma lei do mais forte que rege a vida em qualquer parte do planeta, seja numa aldeia ignorada da montanha ou no palácio presidencial. E que uma pessoa pode ser muito civilizada e urbana, mas, chegado o momento de lutar pela sua sobrevivência, se tiver necessidade de ser cruel, será cruel. Era só isto que eu queria dizer.


Sancirilo (3.ª edição), A Ronda da Noite, Vila Real 2015.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

ADÍLIA LOPES

[A LITERATURA]


A literatura começou para mim aos 10 anos ao ler um texto de Erico Veríssimo que vinha no livro da minha 4.ª classe: Clarissa a observar um carreiro de formigas. Devo a literatura a Erico Veríssimo a à Professora Maria Inácia e às formigas.


Comprimidos, parte integrante da Telhados de Vidro n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

TIAGO ARAÚJO

LILAC WINE


neste clima de opinião, as tuas palavras deixaram de fazer sentido. existem vozes que reproduzem a voz humana a cantar o vinho de uma árvore persa, pesado como o nome que não chamo alto. a andar de costas contra o futuro, vejo apenas o que já passou: a música num quarto virado a norte, escolhido como espaço para avaliar a economia dos afectos. a teoria dos jogos exige um indivíduo racional e que queira vencer. talvez por isso todos os planos tenham falhado. ficarei mais um pouco à tua espera, até ser demasiado tarde para regressar ao território das pequenas recompensas. esta terra é um lugar povoado de mitos que vamos destruindo um a um. resta agora a ilusão de que, num tempo que nos chegou a ser contemporâneo, teríamos palavras para descrever esta perda de idades passadas. as opiniões dividem-se sobre a continuidade do ser ao longo de uma vida feita de lentas metamorfoses. a passagem dos anos, a construção do corpo e as circunstâncias criaram três ou quatro rapazes com o meu nome. não fui eu que, na adolescência, regressei a pé a casa, pela noite dos subúrbios, depois de ter perdido o último comboio e, sem o saber ainda, a tua atenção. sou hoje o duplo da memória de mim próprio e, em alguns minutos roubados às horas, escrevo a biografia de um desconhecido.


Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

RUI PIRES CABRAL

IV. AVANT-DERNIÈRES PENSÉES 3


Basta de elegias às cidades brancas
do fim do Verão. As luzes secaram
dentro das palavras, já nada
as instiga – e que importa, afinal?

Seja como for, tive pouca fé
e más companhias do melhor que há:
amores viajantes, livros emprestados
(tudo é emprestado, se formos a ver),

amigos seguros e outros que o não
foram, nem tinham de ser. Uma coisa
é certa: a hora passou e os versos
murcharam. Deixai-os morrer.


Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

MIGUEL MARTINS

[HÁ POETAS ASSIM]


Há poetas assim,
uns gramas de aletria, fina e doce,
traficados como se fossem cocaína pura.
Alimento energético, é certo,
adequado ao passo de galope
com que esperam chegar a algum lado
e, ao mesmo tempo, agradável ao olfacto
de quem nunca suou, nem sequer a foder.

Massa e açúcar, como disse, muito,
mas também o leitinho da infância,
um toque exótico a canela do Ceilão
e o ingrediente secreto,
que pode ser qualquer coisa
e dizem as más línguas que é apenas
uma irreprimível vontade de parecer interessante.

Sim, há poemas que só se assemelham
ao remate perfeito de uma consoada vulgar,
antes de cada um regressar a casa,
maldizer a família e dar início
à gestação de umas saudades nobres,
que aguardarão um ano pela matança.

Melhor dizendo, parecem-se com tudo
menos com poesia, essa grainha
de uva alojada na cárie de um molar,
que há que suportar só com morte interior,
porque essas coisas acontecem sempre
quando todos os dentistas se mascaram de renas
e vão passar uns dias à puta que os pariu.

Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

domingo, 27 de setembro de 2015

HELDER MOURA PEREIRA

[EU NÃO TINHA NADA DE FELINO, TU SABIAS]


Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.


Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

VITOR SILVA TAVARES

1937-2015


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A. M. PIRES CABRAL

EPÍGRAFE


Se algum dia alguém chegar a ler
este dizer agreste,
provavelmente pensará: que pálida lanterna;
não é deste metal que a luz é feita.

Calma. Pois não.

Mas quem assiduamente
visita os desvãos onde a noite se acoita
não precisa de mais que o clarão desta treva,
desta cegueira sem cão e sem bengala,
para no escuro rasgar o seu caminho
e nele ir progredindo às arrecuas.


A noite em que a noite ardeu, Cotovia, Lisboa, 2015.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

EMANUEL JORGE BOTELHO

ANOTAÇÃO, PREMONITÓRIA, PARA O POUCO ANTES


a última palavra que se diz
é a última vez que se entra em casa.


Fecho as cortinas e espero, Averno, Lisboa, 2014.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

ANA HATHERLY

(1929-2015)


quinta-feira, 25 de junho de 2015

MIGUEL CARDOSO

MUITO DEPOIS DOS DIAS E DAS ESTAÇÕES E DOS SERES E DOS PAÍZES


Há maneiras de usar isto em nosso proveito
e acordar
em tons de verde, rijos de ossos
mas nus
velhos e fulvos

e gastar metade do fôlego
a lavar os dentes,
voltando ao início

e pensar: isto

no tempo em que vai e vem
mais um destes outonos

isto vai

É certo que me sabia bem
um daqueles verdadeiros inícios

Mas chapinhar também é bom


[...]


À barbárie seguem-se os estendais, & etc, Lisboa, 2015.