domingo, 11 de dezembro de 2016

ANA PAULA INÁCIO

OLD SHOES


orgulho
me
de trazer
presas
à sola dos sapatos
areias do deserto,
Senhor

travessias bíblicas


Anónimos do século XXI, Averno, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

JORGE ROQUE

[SEMPRE VIVI NUM REDUTO]


Sempre vivi num reduto, sempre fui uma míngua de terra encostada a um muro. Mas o reduto estreita-se, o muro já mal me deixa mover nesse espaço exíguo que foi quanto me habituei a esperar da vida e era, visto de agora, um lugar feliz, uma cara onde o sorriso cabia.

[...]

Tresmalhado, Averno, Lisboa, 2016.

domingo, 30 de outubro de 2016

TERESA M. G. JARDIM

SACO DE CINZAS


Nunca estamos a sós para que eu te diga
com sinceridade: uma estante de livros não dá mais
do que um saco de cinzas
faz as contas


Telhados de Vidro, n.º 21, Lisboa, Averno, 2016.

sábado, 29 de outubro de 2016

RICARDO ÁLVARO

MORRER
[conjugação]


Eu
Tu
Ele
Nós
Vós
Eles


Telhados de Vidro, n.º 21, Averno, Lisboa, 2016.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

FOLHAS


Duas folhas secas
de plátano
entram comigo
no elevador.
Também elas
empurradas
pelo vento.


Telhados de Vidro, n.º 21, Averno, Lisboa, 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

JORGE ROQUE

POUCAS ARMAS


Formado na moral, isto é, contra a natureza, tens poucas armas para viver neste tempo acérrimo de liberais. Eles têm uma razão: a justiça natural consumada na lei do mais forte, a verdade inocente da selvajaria animal. Tu tens uma razão diferente: o homem está desde sempre expulso da inocência que legitima a selvajaria, a sua verdadeira natureza constrói-se contra o natural.


Cão Celeste, n.º 9, Lisboa, 2016.

sábado, 17 de setembro de 2016

ADÍLIA LOPES

SABOTAGE (HITCHCOCK, 1936)


Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são águas passadas


Z/S, Averno, Lisboa, 2016.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

TÓ CARLOS

[NO FUTEBOL, COMO NO AMOR]


No futebol, como no amor, desde que as equipas deixaram de jogar com um líbero, nunca mais encontrei o meu lugar em campo.


Axiomática namoradeira, Cronópio, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

RUI NUNES

(REGRESSO)


Tudo o que faço não passa de um preâmbulo. Mas, contra todos os preâmbulos, ou como todos os preâmbulos, estes só anunciam outros preâmbulos:
a negra palavra do abutre.
A negra paisagem do abutre


A crisálida, Relógio d'Água, Lisboa, 2016.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ALBERTO PIMENTA

NÃO SEI


Poéticos, os deuses?
Eles não têm sangue.

Debaixo do céu inerte,
a ave que foi trespassada
e cai como um trapo
no tronco de árvore de Botticelli
tinha sangue.
Ou a pantera
do Jardin des Plantes
que incansavelmente
percorre a sua jaula
de um lado para o outro,
cerrando lentamente as pálpebras
sobre o mundo, tem sangue.

Ou as três gotas de sangue na neve
que causam o assombro
abismado de Parsifal
têm origem viva, que se torna poética
quando chegam a ele.

A poesia
são gotas, inúmeras,
secas ou ainda frescas,
sangue, sempre sangue,
o preço líquido
que a vida paga
pela fuga constante
a si mesma,
a caminho
do que não existia
antes de
ela lá ter chegado.

A poesia
quer que cheguemos,
aonde ela chegou.

– E chegamos?

Claro que não.

– E os deuses?

Esses incutem
pavor e esperança:
pavor na vida que temos,
feita do pó do universo,
esperança em chegar a eles
depois dela.

– E chegamos?

Não sei. A qual deles?


Nove fabulo, o mea voz: De novo falo, a meia voz, Pianola, Lisboa, 2016.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

SANDRA ANDRADE

FORTRESS OF SOLITUDE


deixarias a chave no hall sem nunca mais te preocupares em teres um local secreto. imagina o sono. o acordar. usaria a chave para pequenas habilidades quotidianas. sempre seguros, nunca mais alerta. o mundo em implosão lá fora. mas a gaveta verde fechada com livros de petrologia. e a vida perigosa apenas nas arestas. imagina o relógio. a balança. o sono. os caminhos já não serem estreitos.


Doppelgänger, DSO, Coimbra, 2016.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

TERESA VEIGA

[ENQUANTO ESTAVA PARADA]

[...]

Enquanto estava parada, a dois metros de distância, sem me atrever a esboçar um movimento para não o acordar, percebi que a força daquele homem, descontada a robustez física, lhe vinha de não tomar nada por certo, de viver simplesmente o dia-a-dia. Antoine dormia pesadamente, imerso no sono, com a imobilidade de um animal que hiberna ou de alguém fulminado por um tiro. Dormia com a mesma convicção que põe em tudo o que faz, com a ressalva de que nele convicção e desprendimento se equivalem e confundem. Não sofria, não pensava, não tinha sonhos, visões, arrependimentos. Simplesmente dormia.

[...]

"Antes da Revolução", Granta, n.º 7, Tinta-da-China, Lisboa, 2016.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[FABRIQUEI EU TODO O VIDRO]

[...]

Fabriquei eu todo o vidro preciso nas janelas de uma casa à minha medida. Uma parte-de-casa, digo, algures, ou de alguém. Importava ficar-se ao abrigo de ventos de granizo, ter uma referência nascida do empreendimento destas mãos. O que me imiscuiu em tantas e tão perdulárias moradas. Logo em muito miúdo habituara-me a pequenos domínios como o cantinho de uma marquise solarenga, clara, onde o vão entre quatro pés do tanque em cimento me bastava para tecer cobiçosas intrigas. Jamais me atrevia a espiar o território adulto, verdadeiro campo de treino para a desconfiança e o desatino. Era como escolher na encosta íngreme da ravina o mergulho directo num casulo.

[...]


Narrativa (edição revista), Alambique, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

VASCO GATO

[IMPRESSO A GIZ NA ARDÓSIA]


Impresso a giz na ardósia,
um gesto de desamparo.

Vem, parece dizer a mão,
traz-me o continente
da tua estranheza.

E esse é o veneno.
E esse é o demónio que abalou
a podridão dos anjos.


Primeiro direito, Artefacto, Lisboa, 2016.

domingo, 19 de junho de 2016

NUNES DA ROCHA

ORÁCULO


do peito aberto saiu larva sem eco
caligrafia ou certeza
disse o deus

ensinar-te-ei modos de atravessar paredes
quando ninguém é perto
ou saudade

caminhar sobre as águas se o amor for ponte
sem arcos
e nela colhes líquenes de pedra

subir escadas quando a noite se cola aos pés
descalços se disseres adeus
nus quando à porta bateres

[...]

Cordoaria Nacional, Averno, Lisboa, 2016.

terça-feira, 14 de junho de 2016

MIGUEL DE CARVALHO

AUTO-RETRATO


I – Diário de navegação

Movo-me cintilante com bandarilhas solares entre arenas de pétalas mortas. Pressinto as canetas cravadas e adormecidas.

Arrasto o segredo mineral dos ventos e contemplo o verbo derramado pela raiz. Grito nas veias atrás do sangue para esculpir a cor.

Vou comigo, escapando à loucura, carregado de pólen no papel à sombra do gesto. Aprisiono os sentidos e as vigílias de quem espera a palavra surda.

Apaziguo o corpo numa ruína sedutora onde bebo a areia insone. Fecho as janelas atrás da espuma marítima.

Recordo-me sem saída.


Neste estabelecimento não há lugares sentados, Alambique, Lisboa, 2016.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

INÊS DIAS

JOAQUIM E JUDITE

Para o Manuel

Fizera toda a viagem com ele ao colo.

Queria despedir-se junto ao mar,
mas as partidas são tão imperfeitas
se o coração é uma caixa de cinzas
demasiado enferrujada para abrir
ao vento. Mesmo agora, depois de lavada
a última partícula que se lhe colara
à pele, sabia que o amor passara a ter
o peso exacto das ondas e, por isso,
nunca mais deixaria de o ouvir.

E ria, apontando-nos mais um turista
à procura das marcas do milagre
na pedra. Como se não fosse milagre
suficiente cada volta do mar: sermos
ainda reconhecidos, sete passos
dentro da noite, quando andamos
pelo mundo a povoá-lo de fantasmas.


Sítio (com Manuel de Freitas), Volta d'Mar, Nazaré, 2016.

domingo, 5 de junho de 2016

MANUEL DE FREITAS

SÍTIO DA NAZARÉ, 1979


Não tenho a certeza do nome da senhora (que talvez se chamasse Maria Augusta) a quem os meus avós alugavam casa no Sítio, mas sei que era inequivocamente cigana e que a casa ficava mesmo ao lado da praça de touros. Eu dormia no corredor, numa cama minúscula escondida por reposteiros. Os avós entretanto morreram, e a minha mãe optou pelo campismo selvagem nos pinhais em volta, antes de se render ao fascínio terapêutico da praia da Consolação.

Desconheço se devo a essas remotas experiências a tristeza que ainda hoje associo ao Sítio. Mas parece-me evidente que a minha poesia evoluiu (se é que evoluiu) num sentido exactamente contrário: passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém.


Sítio (com Inês Dias), Volta d'Mar, Nazaré, 2016.

domingo, 22 de maio de 2016

CARLOS NOGUEIRA

[ANDAVA UM HOMEM]


andava um homem à procura de si
quando reparou que as searas tinham sido incendiadas
o mar se desregulara
e o sol ardia de outra maneira
com as mãos que pôde dedicou-se a juntar pedras
e o que restava
a construir uma casa geométrica com abertura para cima
no sentido ao contrário da paisagem e das casas
que até então conhecera

com a luz que ainda havia
fez-lhe chão


Textos de trabalho, Averno, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

RUI PIRES CABRAL

THE STRANGER SONG


Ele quis dizer-te agarra
a noite e não pudeste
contentá-lo. Agora
é tarde. Cai uma nódoa
na parede, na camisa

do poema. És acossado
pelo fim que consentiste
e pela sombra da razão
que não tiveste. Olhas
em volta

e só não vês o que aí está
se não quiseres perder de vez
a ilusão de uma saída.
Nos arredores, a luz
é torpe, o verso

inquina. Não há
comboio a estas horas
que te leve ao outro lado
onde te espera, por engano,
a tua vida.

A mil braças de profundidade, AA. VV., Eclusa, Lisboa, 2016.