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quinta-feira, 25 de julho de 2019

JOSÉ CARLOS BARROS

AS LEIS DO POVOAMENTO


À casa regressam agora as perdidas
sombras da infância. Os exercícios de
caligrafia escondidos na cómoda,
os paus do inverno no piso
térreo, o rumor do ouro poisado por
entre um postal e um vidro
de perfume, as raparigas que
paravam na escaleira erguendo a cabeça
na direcção do vento, o sinal
obscuro das mãos erguidas
em prece. E é como se as leis do
povoamento determinassem um lugar
central a tudo o que ao longo
dos anos irremediavelmente se perde.


O uso dos venenos (segunda edição), Língua Morta, Lisboa, 2018.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

JOSÉ CARLOS BARROS

DO QUE A VIDA PODERIA TER SIDO


Os amigos juntam-se e falam do passado,
da música que já não se ouve na rádio,
do inverno em que choveu semanas a fio
e o rio saiu das margens para desenhar

nos troncos das árvores os círculos imperfeitos
da idade. Eles sabem para si mesmos que falam
do que nunca existiu: das mulheres
que se renderam para sempre às palavras do amor,

das perdizes caindo de asa nas encostas
iluminadas da urze, das corridas memoráveis
do vinte e cinco de abril, das tardes de domingo
que haveriam de envergonhar a uefa

se a televisão estivesse presente nas finais dos torneios
dos bombeiros voluntários. É disso que os amigos
falam: do que a vida poderia ter sido
se não fosse a filha da puta da vida que foi.


Criatura, n.º 3, Núcleo Autónomo Calíope da Faculdade de Direito de Lisboa, 2009.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

JOSÉ CARLOS BARROS

EM VEZ DO SILÊNCIO


Riscar aos poucos, uma
a uma, as imagens, as palavras.
Reduzi-las a um breve núcleo
substantivo. E depois apagar
de novo, uma e outra, uma
e outra. Até à ilusão
da nascente, à nuvem
das águas subterrâneas.

Por uma poesia
que não dissesse. Que não enunciasse.
Que apenas deixasse
nas folhas das árvores
o que se esconde por dentro
do obscuro rumor
indecifrável das palavras.

A arquitectura e a árvore:
um sistema filosófico
dividido entre a perfeição
da matemática e
a claridade iniludível
da experiência. Entre
a razão e a verdade.

Apagar as palavras, uma
a uma, até à ilusão
da primitiva vertigem
criadora. As raízes
da árvore erguendo-se
em vez do silêncio
e em vez do poema.


Sulscrito, n.º 1, Faro, 2007.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

JOSÉ CARLOS BARROS

AS FRONTEIRAS


Era no tempo improvável da etnografia:
vestíamos jeans e corríamos no restolho,
viravam-se nos lameiros os fenos
três dias depois de ceifados
à lâmina, vivíamos depressa
a ler o Cesariny ou a debulhar
o milho nos sobrados, espalhava-se no chão
a caminho da igreja o alecrim.
Parece que foi no séc. XIX
entre retratos como se fossem a sépia e os bilhetes
do expresso de Lisboa comprados
no Cunha a ver os concertos de jazz.
O que nos traiu não é fácil de dizer.
Agora é apenas como se um estranho caleidoscópio
misturasse a tristeza e o êxtase
do que fomos, do que quase chegámos a ser.


Periférica, n.º 13, Vilarelho, Vila Pouca de Aguiar, 2005.