quinta-feira, 29 de julho de 2021

PEDRO TAMEN

 1934-2021



sexta-feira, 21 de maio de 2021

MIGUEL-MANSO

ATRÁS DA VELHA SÉ


(não trazer os limoeiros do jardim
de novo para o poema)

Lisboa já não é suficiente
faz-me falta um povoado sub-regional onde exista
precisamente este quarto musicado, sumido
entre a cal sobreposta dos séculos

lugar despojado, despido, eu tenho
fome de não comer, abater o que em mim arvora
permanecer sentado no sangue que cursa
a ribeira deste corpo e um dia secará

para que o gato sujo se aborreça
outra e outra vez sobre o muro, à sombra
dos limoeiros


Estojo, Relógio d'Água, Lisboa, 2020.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

EMANUEL JORGE BOTELHO

RUMORES


nunca se sabe de que lado está
o pássaro que guarda a entrada da noite.

a gente descobre-o quando dá rasura
ao que é de fel no dizer dos pulsos;
essa cobardia, casta e inocente,
a que o medo dá o pão e o tecto de alma.


Manual dos dias cavos, Averno, Lisboa, 2021.

quinta-feira, 18 de março de 2021

A. M. PIRES CABRAL

 A UMAS FLORES AMARELAS


Encontro-as por acaso numa ilharga
sombria do caminho. São amarelas.
Reluzem como um sol que arda na noite.

Estas flores tão densamente de ouro,
eriçadas de estames que parecem
a pelagem dum gato posto à prova,

a mim, que me comovo com igrejas singelas
de preferência a grandes catedrais,

mostram um esplendor totalmente inesperado
neste chão de pedra que ninguém diria
poder florir assim.

Ó flores cujo nome desconheço,
prolongai esse fulgor humilde em cada dia
de que ainda disponho para ver as flores,

antes de as flores virem ter comigo.


Simbioses [de Gaveta do fundo], Lema d'Origem, Carviçais, 2020.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

MANUEL DE FREITAS

 TANGERINAS E NÃO SÓ

para a madrinha Lena

Já não é uma mãe, mas o que mais se pode aproximar disso: viu-me nascer, crescer tão mal, escrever melhor ou pior os meus incertos desenganos. Hoje, a meio da tarde, apanhámos tangerinas, como quem se despede de um reino demasiado antigo ou de nós próprios. É sempre apenas uma questão de tempo. Como esses gomos fulvos que as mãos tentam de novo segurar, levar à boca. Nunca soube o que fazer das cascas.

*

Dizem que tenho uma casa, mesmo no portão em frente. Mas talvez seja mais exacto afirmar que essa casa me possui, que antevejo e adio a sua ruína desde que me lembro. Foi ali que conheci o medo. Foi ali que perdi tudo: os meus pais, os meus brinquedos, a virgindade. Posso e não posso perdoar agora os meus fantasmas, inventar-lhes o rosto que nunca tiveram, imaginar uma morte concreta enquanto acaricio o dorso negro e felino do Cesário.

*

Substituí, uma vez mais, o cadeado. E só hoje me ocorreu pensar, enquanto apanhávamos tangerinas, que o problema pode ser da chave.


769118, Averno, Lisboa, 2020.

domingo, 22 de novembro de 2020

INÊS DIAS

 CONVENTO DOS CAETANOS, 2018


Às vezes
acontece o passado
entrar em obras,
ter de se mudar.

Corre-se a luz,
cobre-se o som;
e saem primeiro todas as caixas
(onde nunca cabe
a poeira que aconchega
o nosso mundo),
como um carrilhão amordaçado
a atravessar a cidade.

Ficam apenas as paredes,
frágil caixa de ressonância
da memória.


Cerveja & Neve, Averno, Lisboa, 2020.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS

 1920-2020


Fotógrafo: Manuel Roberto (Público)

domingo, 1 de novembro de 2020

ANA PAULA INÁCIO

 [DEBAIXO DO CIPRESTE]


debaixo do cipreste
um velho
no pasto, as vacas
no céu as nuvens
rápidas

o cipreste está muito verde
a terra muito castanha
o velho muito cinzento
o céu muito nublado
as vacas muito paradas


Vago pressentimento azul por cima, 2.ª edição, Alambique, Lisboa, 2020.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A ESTAÇÃO IMPOSSÍVEL


O poema exprime-se em frases entrecortadas
linhas da corrente, irrisórias explosões
mas espera qualquer coisa
suficientemente brilhante
qualquer coisa
para lá dos caudais escoados
que no alto erga
a estação impossível
esse momento em que a língua dos homens
não possa mais mentir


Teoria da fronteira, Assírio & Alvim, Lisboa, 2017.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

ADÍLIA LOPES

50 ANOS


Talvez escreva
poemas
que já li
que outros já escreveram
que eu mesma já escrevi
esqueço-me
da minha vida


Dobra, 2.ª edição, aumentada [de Apanhar ar], Assírio & Alvim, Lisboa, 2014.

domingo, 6 de setembro de 2020

NUNES DA ROCHA

 [QUE INTERESSA ESCREVER POEMAS BONITOS]


Que interessa escrever poemas bonitos,
Ele há tantos!
Bem escritos? Muitos, muitos,
Desde o latinório ao recém acordo ortopédico da fala.
É preciso animar a malta?
Também, também há, Edições Sem Leitores,
Com espingardas floridas e passeio a Ribatejo.
Poema coisa?, ui, resmas desde 61 do passado século
E além.
Mas sejamos sinceros, o poema bonito hoje
Está inda mais bonito e vale a pena,
Com sua água-de-colónia
E flores na fotografia.


Colóquios dos simples, Averno, Lisboa, 2020.

domingo, 30 de agosto de 2020

E. M. DE MELO E CASTRO

1932-2020


sábado, 22 de agosto de 2020

JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

LÁ MAIOR


Também não gosto das coisas, em geral. Nem da música, nem da poesia, nem, sobretudo, da humanidade. Amo esta ou aquela música, sim, esta ou aquela pessoa, ou este poema ou povo em particular.

A minha alma foge das grandes ideias. Se sai para o infinito, é nas coisas ínfimas.


Prelúdios [com Manuel de Freitas], Alambique, Lisboa, 2020.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

MANUEL DE FREITAS

SHOTS


Gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas. Ou das pessoas que desconheço e das bebidas todas que ignoro (porque me matam menos e se chamam — como eu — insónia, pesadelo, golpe baixo).

E, no entanto, recomeço.


Prelúdios [com João Paulo Esteves da Silva], Alambique, Lisboa, 2020.

domingo, 2 de agosto de 2020

INÊS DIAS

OS PEQUENOS FANTASMAS

Then I sit in a South window
And sip pale wine with a touch of hemlock in it,
An think of Winter nights,
And field-mice crossing and re-crossing
The spot which will be my grave.

AMY LOWELL

Antecipo-os ao virar
das esquinas devolutas,
atrás de portas fechadas;
conheço-lhes até as vozes,
emboscadas em canções
que vou mantendo acesas
para não os perder de vista.

Alguns teimam em ficar
à distância, olhando-me
com rancor em jeito de
desafio, talvez de espera.
Outros sentam-se de manso
no meu colo, como os filhos
que nunca quis mesmo ter.

Receio que um dia deixem
de me reconhecer o corpo
cada vez menos inteiro,
mais sitiado pela memória.
Guardo-os, pois, ciosamente:
só os partilho com os meus
futuros grandes fantasmas.


Reservado o direito de admissão (AA. VV.), Piantao, Lisboa, 2020.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[NUNCA MAIS À INFÂNCIA REGRESSAREMOS]


Nunca mais à infância regressaremos.

Troquemos de lendas, mitos, ideais.
Troquemos de tormento, de pulsação
felina, de borzeguim e gravata. Perdemos

a memória e sinapses na separação
do conhecimento em luz que
decompusemos,
mestre, entre teu jardim e os demais.

Nunca mais à infância regressaremos.

Troquemos de pontas de fogo,
troquemos de contas de vidro,
troquemos de contas de vidro...


Ilícito, Averno, Lisboa, 2020.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

MANUEL CINTRA

1956-2020


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

CARLOS POÇAS FALCÃO

[TODOS OS DIAS VIAJO PARA A CULPA]


Todos os dias viajo para a culpa.
É lá onde trabalho, movendo e removendo
juízos e vergonhas, vergando-me nas margens
do rio tenebroso. Depois liberto as faces
lavadas nas passagens, estendo inteiro ao sol
o manto, a envoltura, a translúcida mortalha

que ilude o meu rubor. Viajo para a culpa
e regresso ao fim dos dias, a tempo dos crepúsculos
e do corpo de repouso. Já amo esta viagem
que segura o meu amor, a inteligência canta
todo o dia de canseiras. Assim trabalho ao sol
fazendo por que a vida não me seja inimputável.


A nuvem (2.ª edição), Opera Omnia, Guimarães, 2019.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

EMANUEL JORGE BOTELHO

[A PALAVRA À ESPERA]


a palavra à espera
da palavra
à espera
da palavra


Dizeres de Atalaia II [de Perguntas queimadas], Averno, Lisboa, 2019.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

MANUEL RESENDE

1948-2020


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

POEMAS


Aspectos perdidos
pequenas sombras ao redor de poderosa imagem.

Aquilo que
distingue a palavra ave da palavra pássaro.


Antologia dos poemas, Relógio d'Água, Lisboa, 2019.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

[UM HOMEM PORTUGUÊS QUE AME OUTRO HOMEM]


Um homem português que ame outro homem e tenha mais ou menos a minha idade, no relativamente limitado arco temporal da sua existência, já conheceu três situações inteiramente distintas: a repressão pura e dura da velha mentalidade, a areia movediça da «tolerância» dos novos tempos (essa refinada forma de discriminação, como alguém lhe chamou) e, por fim, um libertador princípio de aceitação que se vislumbra apenas, por enquanto, na fé e no voluntarismo dos muito poucos que pela plena aceitação diariamente, em todas as circunstâncias, lutam com firmeza. E interrogo-me acerca da enormíssima e pequena diferença que há entre levar o triângulo cor-de-rosa bordado ao peito num campo de concentração e deambular pela ampla prisão do mundo com a bandeira do arco-íris em miniatura pregada militantemente na lapela do casaco. Militância que não se confunde nem nada tem a ver com forma alguma – camuflada ou aberta – de proselitismo sexual, ao contrário do que diz a pior gente que nos ataca. A militância é apenas, muito modestamente, um acto de necessidade da luta pela sobrevivência: um homossexual sozinho e calado é um homossexual em perigo. Mas a militância é também, fundamentalmente, um alegre e magnífico acto de liberdade. Ninguém é obrigado a confessar a própria sexualidade, mas essa é a mais generosa dádiva que podemos legar a todos os homossexuais de ambos os sexos que ainda não nasceram.


A angústia da azeitona antes de se transformar em luz [de Memória de lápis de cor], Não (edições), Lisboa, 2019.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A. M. PIRES CABRAL

ADVERTÊNCIA


Nas laudas que aí ficam muito me esforcei,
senhores, por dar caça aos adjectivos
que tanto vos molestam.

Mas nem tudo correu bem.
Houve uns quantos que se barricaram
e ergueram cartazes e gritaram com ira
uma palavra de ordem:

– O sal da poesia somos nós!

Achei graça –
dizerem que são eles o sal da poesia,
quando nem sequer o colorau.

Mas, enfim, enterneceu-me
tanto arreganho, tanto apego
às tetas da musa –
e não tive coragem para os expulsar.

Espero que não pesem, senhores, demasiado
na melindrosa balança de vossas senhorias.


Frentes de fogo, Tinta-da-china, Lisboa, 2019.

domingo, 24 de novembro de 2019

JORGE ROQUE

[NÃO É PRECISO HAVER DITADOR]


Não é preciso haver ditador, basta haver maioria. A maioria quer o mesmo que o ditador.


Senhor Porco/SuaExcelência, Averno, Lisboa, 2019.

sábado, 9 de novembro de 2019

ABEL NEVES

[UM RASGO BREVE NA PAISAGEM]


um rasgo breve na paisagem
os ventos são o teu sopro      interminável
a natureza é verdadeira
a obra larga a sua pele


Escuro celeste dos olhos, Averno, Lisboa, 2019.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

ALBERTO PIMENTA

SONETO DROLÁTICO


o prémio que!... merda, não calhou
a panela que!... merda, furou
a dívida que!... merda, disparou
o banco que!... merda, fundou afundou fundou

a ferida que!... é de gritos, infectou
a hérnia que!... é de gritos, inchou
o hospital que!... é de gritos, não observou
a clínica do Ó aberto que!... é de gritos, fechou

o pai que patinou (para fora do ringue), pronto...
a mãe que foi atrás dele (e ainda não voltou), pronto...
a amiga que de noite zarpou, pronto...

e levou, tem graça!, a Coca consigo
deixou, tem graça!, um caixote que ficou
cheio, tem graça!, do que eu não digo.


Zombo, Edições do Saguão, Lisboa, 2019.

domingo, 27 de outubro de 2019

JOSÉ BENTO

1932-2019


terça-feira, 15 de outubro de 2019

MARTA MAGALHÃES

Falhar outra vez. Falhar melhor.
Samuel Beckett


FALHAR MELHOR


Falhar melhor
não sei, mas falhar
sempre

exige muita pontaria


Limpa Metais Coração, Alambique, Lisboa, 2019.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

ANTÓNIO BARAHONA

MEMÓRIA DE JOSÉ LUÍS PAREDES DA BEIRA


Tiravas o retrato, no Rossio, ao espelho,
a crianças, no meio d'amestrados pombos:
davam plo nome e vinham pousar-te nos ombros,
ou no pulso da tua mão cheia de milho.

Eram teus olhos dum azul tão claro
que neles se avistava os pombos a voar
num céu primaveral: tinhas o dom de dar,
amigo tão discreto, puro e raro.

Que foi feito de ti? Esta cidade alui:
incauta, vai matando a sua arquitectura
e os actores rituais nos últimos redutos.

Onde nascia o Sol, agora o Sol se esvai;
e onde havia Ócio, agora há só Usura;
e onde havias tu, agora há pombos mortos.


A fina flora do crepúsculo, Averno, Lisboa, 2019.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

JOSÉ CARLOS BARROS

AS LEIS DO POVOAMENTO


À casa regressam agora as perdidas
sombras da infância. Os exercícios de
caligrafia escondidos na cómoda,
os paus do inverno no piso
térreo, o rumor do ouro poisado por
entre um postal e um vidro
de perfume, as raparigas que
paravam na escaleira erguendo a cabeça
na direcção do vento, o sinal
obscuro das mãos erguidas
em prece. E é como se as leis do
povoamento determinassem um lugar
central a tudo o que ao longo
dos anos irremediavelmente se perde.


O uso dos venenos (segunda edição), Língua Morta, Lisboa, 2018.