quinta-feira, 4 de junho de 2020

MANUEL CINTRA

1956-2020


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

CARLOS POÇAS FALCÃO

[TODOS OS DIAS VIAJO PARA A CULPA]


Todos os dias viajo para a culpa.
É lá onde trabalho, movendo e removendo
juízos e vergonhas, vergando-me nas margens
do rio tenebroso. Depois liberto as faces
lavadas nas passagens, estendo inteiro ao sol
o manto, a envoltura, a translúcida mortalha

que ilude o meu rubor. Viajo para a culpa
e regresso ao fim dos dias, a tempo dos crepúsculos
e do corpo de repouso. Já amo esta viagem
que segura o meu amor, a inteligência canta
todo o dia de canseiras. Assim trabalho ao sol
fazendo por que a vida não me seja inimputável.


A nuvem (2.ª edição), Opera Omnia, Guimarães, 2019.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

EMANUEL JORGE BOTELHO

[A PALAVRA À ESPERA]


a palavra à espera
da palavra
à espera
da palavra


Dizeres de Atalaia II [de Perguntas queimadas], Averno, Lisboa, 2019.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

MANUEL RESENDE

1948-2020


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

POEMAS


Aspectos perdidos
pequenas sombras ao redor de poderosa imagem.

Aquilo que
distingue a palavra ave da palavra pássaro.


Antologia dos poemas, Relógio d'Água, Lisboa, 2019.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

[UM HOMEM PORTUGUÊS QUE AME OUTRO HOMEM]


Um homem português que ame outro homem e tenha mais ou menos a minha idade, no relativamente limitado arco temporal da sua existência, já conheceu três situações inteiramente distintas: a repressão pura e dura da velha mentalidade, a areia movediça da «tolerância» dos novos tempos (essa refinada forma de discriminação, como alguém lhe chamou) e, por fim, um libertador princípio de aceitação que se vislumbra apenas, por enquanto, na fé e no voluntarismo dos muito poucos que pela plena aceitação diariamente, em todas as circunstâncias, lutam com firmeza. E interrogo-me acerca da enormíssima e pequena diferença que há entre levar o triângulo cor-de-rosa bordado ao peito num campo de concentração e deambular pela ampla prisão do mundo com a bandeira do arco-íris em miniatura pregada militantemente na lapela do casaco. Militância que não se confunde nem nada tem a ver com forma alguma – camuflada ou aberta – de proselitismo sexual, ao contrário do que diz a pior gente que nos ataca. A militância é apenas, muito modestamente, um acto de necessidade da luta pela sobrevivência: um homossexual sozinho e calado é um homossexual em perigo. Mas a militância é também, fundamentalmente, um alegre e magnífico acto de liberdade. Ninguém é obrigado a confessar a própria sexualidade, mas essa é a mais generosa dádiva que podemos legar a todos os homossexuais de ambos os sexos que ainda não nasceram.


A angústia da azeitona antes de se transformar em luz [de Memória de lápis de cor], Não (edições), Lisboa, 2019.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A. M. PIRES CABRAL

ADVERTÊNCIA


Nas laudas que aí ficam muito me esforcei,
senhores, por dar caça aos adjectivos
que tanto vos molestam.

Mas nem tudo correu bem.
Houve uns quantos que se barricaram
e ergueram cartazes e gritaram com ira
uma palavra de ordem:

– O sal da poesia somos nós!

Achei graça –
dizerem que são eles o sal da poesia,
quando nem sequer o colorau.

Mas, enfim, enterneceu-me
tanto arreganho, tanto apego
às tetas da musa –
e não tive coragem para os expulsar.

Espero que não pesem, senhores, demasiado
na melindrosa balança de vossas senhorias.


Frentes de fogo, Tinta-da-china, Lisboa, 2019.

domingo, 24 de novembro de 2019

JORGE ROQUE

[NÃO É PRECISO HAVER DITADOR]


Não é preciso haver ditador, basta haver maioria. A maioria quer o mesmo que o ditador.


Senhor Porco/SuaExcelência, Averno, Lisboa, 2019.

sábado, 9 de novembro de 2019

ABEL NEVES

[UM RASGO BREVE NA PAISAGEM]


um rasgo breve na paisagem
os ventos são o teu sopro      interminável
a natureza é verdadeira
a obra larga a sua pele


Escuro celeste dos olhos, Averno, Lisboa, 2019.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

ALBERTO PIMENTA

SONETO DROLÁTICO


o prémio que!... merda, não calhou
a panela que!... merda, furou
a dívida que!... merda, disparou
o banco que!... merda, fundou afundou fundou

a ferida que!... é de gritos, infectou
a hérnia que!... é de gritos, inchou
o hospital que!... é de gritos, não observou
a clínica do Ó aberto que!... é de gritos, fechou

o pai que patinou (para fora do ringue), pronto...
a mãe que foi atrás dele (e ainda não voltou), pronto...
a amiga que de noite zarpou, pronto...

e levou, tem graça!, a Coca consigo
deixou, tem graça!, um caixote que ficou
cheio, tem graça!, do que eu não digo.


Zombo, Edições do Saguão, Lisboa, 2019.

domingo, 27 de outubro de 2019

JOSÉ BENTO

1932-2019


terça-feira, 15 de outubro de 2019

MARTA MAGALHÃES

Falhar outra vez. Falhar melhor.
Samuel Beckett


FALHAR MELHOR


Falhar melhor
não sei, mas falhar
sempre

exige muita pontaria


Limpa Metais Coração, Alambique, Lisboa, 2019.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

ANTÓNIO BARAHONA

MEMÓRIA DE JOSÉ LUÍS PAREDES DA BEIRA


Tiravas o retrato, no Rossio, ao espelho,
a crianças, no meio d'amestrados pombos:
davam plo nome e vinham pousar-te nos ombros,
ou no pulso da tua mão cheia de milho.

Eram teus olhos dum azul tão claro
que neles se avistava os pombos a voar
num céu primaveral: tinhas o dom de dar,
amigo tão discreto, puro e raro.

Que foi feito de ti? Esta cidade alui:
incauta, vai matando a sua arquitectura
e os actores rituais nos últimos redutos.

Onde nascia o Sol, agora o Sol se esvai;
e onde havia Ócio, agora há só Usura;
e onde havias tu, agora há pombos mortos.


A fina flora do crepúsculo, Averno, Lisboa, 2019.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

JOSÉ CARLOS BARROS

AS LEIS DO POVOAMENTO


À casa regressam agora as perdidas
sombras da infância. Os exercícios de
caligrafia escondidos na cómoda,
os paus do inverno no piso
térreo, o rumor do ouro poisado por
entre um postal e um vidro
de perfume, as raparigas que
paravam na escaleira erguendo a cabeça
na direcção do vento, o sinal
obscuro das mãos erguidas
em prece. E é como se as leis do
povoamento determinassem um lugar
central a tudo o que ao longo
dos anos irremediavelmente se perde.


O uso dos venenos (segunda edição), Língua Morta, Lisboa, 2018.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

SEGUNDO POEMA DE SETEMBRO


Tens quase um poema escrito
numa página
que se abre na tua vida. Versos
sem importância que te fizeram ágil
a sentir o que o mundo desde sempre te deu.

Tens quase um poema escrito
no espelho do teu sangue,
e há uma criança lenta que te atravessa a tarde.
Mas a cegueira impede que vejas de entre as sombras
o que uma luz demasiada ali escreveu para ti.


A ciência das sombras, Relógio d'Água, Lisboa, 2018.

domingo, 2 de junho de 2019

MANUEL DE FREITAS

[SER POETA]


Ser poeta é ser mais baixo, como toda a gente sabe.


Jardim da Parada [com ilustrações de Luís Henriques], Paralelo W, Lisboa, 2019.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

VALTER HUGO MÃE

[MEU AMOR INVENTADO]


meu amor inventado
ainda assim tanto demoras


Publicação da mortalidade [de O resto da minha alegria], Assírio & Alvim, Lisboa, 2018.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

JOSÉ CARLOS SOARES

[AO MENOS ISSO: O VENTO]


Ao menos isso: o vento
é brisa, o sol
não queima,

a espera tece
a trajectória
da bala. Ao menos

o relógio no chão, o pulsar
das mãos na terra,

flor e sangue
na mesa, cascas

avivando o lume.


Café Candelabro [com Eduardo Matos], Edições Guardanapo [Porto], 2017.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

LUÍS PEDROSO

SILÊNCIO


Chiado Terrasse,
longas tardes de imobilidade e
sussurros de plateia deserta
enquanto Lear ressona no seu trono
e um pó muito antigo permanece sobre o estrado

Não admira pois
o crescente saudosismo destas gentes
que já confundem o direito a constituir família
com o direito de constituir exército
e finar-se em brutas camas de dossel

Sonham com um doirado
exílio,
passam a vida inteira em pantufas,
com os pés em cima da escrita
e ao passarem pelas portas fechadas
do antigo cinema do bairro,
lá conseguem soltar uma vibração,
uma injúria

Este será o ensaio final, depois
um chá das cinco no jardim de Inverno,
scones com manteiga ou doce, e já esquecido
qual o tema do debate, reafirmo –
nada está decidido ao primeiro verso


Romance ou falência, Artefacto, Lisboa, 2014.

sábado, 23 de março de 2019

PAULO JOSÉ MIRANDA

PRINCÍPIO


Quando nasceu, vinha morto.
De cordão umbilical ao pescoço,
asfixia, roxo.
Seria um facto triste
não houvesse outro mais cruel:
o irmão haveria de viver.


O tabaco de Deus, Cotovia, Lisboa, 2002.

segunda-feira, 4 de março de 2019

MATILDE CAMPILHO

DESMEMBRAMENTO DE UM SEMICÍRCULO


Certo que nos dedicamos
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos 
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.


Jóquei, Tinta-da-china, Lisboa, 2014.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

MANUEL DE FREITAS

UM ÚLTIMO NOME

[...]

Eu dantes escrevia poemas, como diria Karen Blixen da sua quinta em África ou Álvaro de Campos do dia do seu aniversário. Os versos tornaram-se-me prosa baça, apontamentos, meros diálogos ou evocações. Evito metáforas e ardis retóricos como quem evita aviões ou eléctricos cheios de ninguém. Custa-me, por vezes, reconhecer a cidade onde decidi viver.

Falar da morte — sempre foi isso, creio, a minha poesia. Embora, tenho de acrescentar, nunca apenas isso. Entre mim e o suicídio interpôs-se, por exemplo, a Paixão segundo São Mateus de Bach. Posso dizê-lo, agora que já não me vou matar mas irei certamente morrer. Eu que talvez nunca me tenha querido matar, mas que precisei tanto da certeza de o poder fazer.

[...]

Junto ao chão [com Carlos Nogueira], Capela do Rato, Lisboa, 2018.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

RUI CAEIRO

1943-2019


[Fotografia de Changuito (Mário Guerra)]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

ALBERTO PIMENTA

[A MINHA NÃO É ESSA]

[...]

a minha não é essa
não sou empreendedor
nunca na minha vida empreendi
e quase não aprendi
e esse pouco desaprendi
e ainda me falta desaprender
vejo o que se vê
como lugar onde tudo se oculta
vejo o que se mostra
como lugar onde tudo se frustra
agora já é tempo
estou simplesmente à espera
derramei a minha história
que se passa dentro da tua
e a tua também
dentro da minha
é a história em que sei que estou
dura ainda o tempo
que ela quiser

[...]

Pensar depois no caminho, Edições do Saguão, Lisboa, 2018.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

AFONSO CRUZ

[CREIO QUE O GUARDA-CHUVA]


Creio que o guarda-chuva é uma excelente invenção. Repare: não é um objecto que acabe com a chuva, é sim algo que evita a chuva individualmente. Não gosto dela, mas não acabo com ela, não a destruo. O guarda-chuva é uma filosofia que usamos no quotidiano. A água continua a cair nos campos, apenas evito que me estrague o penteado. É um objecto bondoso, que não magoa ninguém.


Flores, 2.ª edição, Companhia das Letras, Lisboa, 2017.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

INÊS DIAS

MENINA CALÇANDO A MEIA
[ESTUFA-FRIA, 1966]


Não te mexas.

O futuro é perder o equilíbrio,
cair até bater no fundo
de uma insónia hora a hora
interrompida para respirar
à superfície da luz.

Não te mexas, ainda.

Não hesites, não assustes o sonho
pousado em teia sobre ti,
não agites as águas.
E talvez a vida se deixe
ficar à margem
com os seus dias armados de pedras.


Ponto-sombra (de Da Capo), Corsário-Satã, São Paulo, 2018.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

SANDRO WILLIAM JUNQUEIRA

A DISTÂNCIA NÃO TEM SUFICIENTES QUILÓMETROS


Se o dia fabrica paisagens a noite concebe vazios.

A mil cento e vinte e três quilómetros de distância, a Sul, está tão escuro como ali. A segunda parte da noite. Deitada de costas, a Lua é magra. Já alcançou o centro da abóbada. As estrelas, distantes e indiferentes às vidas humanas, brilham a sua solidão perpétua. Mas, o que se decide ali, naquele instante, dentro daquela casa, influenciará pessoas e acontecimentos a mil cento e vinte e três quilómetros, a Sul.

A distância não tem suficientes quilómetros para se pôr a salvo, nem da noite nem da passada larga do destino.

[...]

No Céu não há limões, Caminho, Alfragide, 2014.

domingo, 9 de setembro de 2018

A. M. PIRES CABRAL

A MÁQUINA DE COSTURA HUSQVARNA


1.

Havia em casa uma máquina Husqvarna
e às vezes a Mãe sentava-se a ela
e costurava.

Curioso, a Mãe não conseguia
costurar calada. Isto é: tinha de cantar.
E cantava muito e bem. Dir-se-ia que
a costura exigia encenação
de que cantar era parte obrigatória.

Sentado ao pé dela, ficava fascinado
pelo picar obstinado da agulha sobre o pano
ao ritmo com que a Mãe impelia o pedal

— e o picar lembrava-me o afã das pombas
devorando em vaivém os grãos de milho
que meu Pai lhes atirava à porta da farmácia,
nos dias em que estava de maré.


2.

Chegou porém o dia em que as dores nas costas
impediram a Mãe de costurar (mas não de cantar).

Ora, a fábrica Husqvarna, avisadamente,
à boa maneira sueca,
previa o caso de as mães não poderem costurar
e o corpo da máquina estava preparado
para, quando removido do uso normal,
se dobrar sobre si e embutir.

(Lembrava então uma ave exausta
que recolhe a cabeça sob a asa e cisma.)

Mas, como foi feita para ser útil,
sempre servia de mesa numa precisão.

Nunca mais vi pombas a debicar grãos de milho
no picar diligente da agulha.


3.

Acho que ainda se fabricam coisas Husqvarna:
motocicletas, corta-relvas, moto-serras,
ferramentas prestimosas, praticáveis.

Mas aposto que nenhuma dessas coisas boas
tem mães a cantar nela nem sequer
lembra pombas a ninguém.


Trade Mark, Cotovia, Lisboa, 2018.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

LUÍS AMARO

1923-2018


quinta-feira, 26 de julho de 2018

MANUEL RESENDE

VOLTAR PARA CASA


Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
E seguir o rasto das árvores no chão,
Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
E as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
Pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,
Cabisbaixa?


Poesia reunida [de Em qualquer lugar], Cotovia, Lisboa, 2018.