terça-feira, 14 de junho de 2016

MIGUEL DE CARVALHO

AUTO-RETRATO


I – Diário de navegação

Movo-me cintilante com bandarilhas solares entre arenas de pétalas mortas. Pressinto as canetas cravadas e adormecidas.

Arrasto o segredo mineral dos ventos e contemplo o verbo derramado pela raiz. Grito nas veias atrás do sangue para esculpir a cor.

Vou comigo, escapando à loucura, carregado de pólen no papel à sombra do gesto. Aprisiono os sentidos e as vigílias de quem espera a palavra surda.

Apaziguo o corpo numa ruína sedutora onde bebo a areia insone. Fecho as janelas atrás da espuma marítima.

Recordo-me sem saída.


Neste estabelecimento não há lugares sentados, Alambique, Lisboa, 2016.