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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

RUI ÂNGELO ARAÚJO

[LEMBRO-ME DE UMA COISA]

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Lembro-me de uma coisa que aconteceu num dia de nevoeiro, disse eu a Leonardo, mas tenho a certeza de que não é isto que quero recordar ou esquecer em dias assim, embora tenha sido a minha primeira experiência com a morte. A avó de  umas crianças do bairro morreu quando eu estava na casa da sua família por razões que já não lembro. Houve um grito da criada, um tropel de passos no soalho e, não sei quanto tempo depois, um adulto pesaroso, creio que com algumas lágrimas, mandou-nos severamente brincar na rua. As mais velhas das crianças tiveram tempo de saber o que se passara e sentiram um alívio que não podiam compreender ao serem dispensadas de constrangimentos. O quarto da idosa ficava no corredor que dava para a rua e ao passarmos eu pude ver-lhe o rosto, o mesmo rosto de cera, enrugado e impassível, que eu conhecia de outras visitas, soerguido pela mesma almofada. Na rua o nevoeiro imperava e, entranhando-me nele como num sonho, com poucas coisas que observar e rodopiando lentamente no passeio, eu revi repetidamente aquela imagem.

[...]

Hotel do Norte, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2017.

domingo, 27 de março de 2016

RUI ÂNGELO ARAÚJO

[HÁ NAS QUINTAS DO DOURO]


Há nas quintas do Douro uma aragem de aristocracia, de ambiente de corte – vence-nos ali a indolência e a frivolidade sem era nem pressa da classe dominadora –, mas a madrinha só com fórceps poderia ter nascido para aquele mundo. O casarão dela destoaria nas margens do rio, seria o contraponto sinistro da arquitectura luminosa e diáfana que ali marca a paisagem. Não que a casa dela fosse muito diferente daquelas, ou que a madrinha nas velhas fotografias mostrasse um ar mais austero e severo do que o que apresentara nas suas a D. Antónia Adelaide Ferreira. A madrinha, pelo aspecto nas fotos antigas, poderia ser uma proprietária duriense, e a sua casa uma quinta entre vinhedos, mas quem a conhecesse não escreveria monografias hagiográficas, nem haveria colheitas com o seu nome, rótulos com o seu semblante. O seu vinho haveria de saber ao sangue azedado esquecido em pipas nas caves do castelo de Drácula e a casa pareceria o assento baronial que inspirou Branquinho da Fonseca.


A origem do ódio: Crónica de um retiro sentimental, Língua Morta, Lisboa, 2015.

sábado, 21 de dezembro de 2013

RUI ÂNGELO ARAÚJO

[POR VEZES]


Por vezes não existe reciprocidade absoluta de sentimentos. Ainda que a amizade mútua seja grande, o melhor amigo de uma pessoa pode ter como melhor amigo uma terceira pessoa, que por sua vez também tem o seu próprio melhor amigo. Os sentimentos têm destes desencontros, é difícil que coincidam em grau e exclusividade, por isso os segredos se sabem, percorrem a longa cadeia das amizades, passam de melhor amigo em melhor amigo.


Os idiotas, O Lado Esquerdo Editora, Messejana, 2013.