quinta-feira, 27 de setembro de 2018

SANDRO WILLIAM JUNQUEIRA

A DISTÂNCIA NÃO TEM SUFICIENTES QUILÓMETROS


Se o dia fabrica paisagens a noite concebe vazios.

A mil cento e vinte e três quilómetros de distância, a Sul, está tão escuro como ali. A segunda parte da noite. Deitada de costas, a Lua é magra. Já alcançou o centro da abóbada. As estrelas, distantes e indiferentes às vidas humanas, brilham a sua solidão perpétua. Mas, o que se decide ali, naquele instante, dentro daquela casa, influenciará pessoas e acontecimentos a mil cento e vinte e três quilómetros, a Sul.

A distância não tem suficientes quilómetros para se pôr a salvo, nem da noite nem da passada larga do destino.

[...]

No Céu não há limões, Caminho, Alfragide, 2014.

domingo, 9 de setembro de 2018

A. M. PIRES CABRAL

A MÁQUINA DE COSTURA HUSQVARNA


1.

Havia em casa uma máquina Husqvarna
e às vezes a Mãe sentava-se a ela
e costurava.

Curioso, a Mãe não conseguia
costurar calada. Isto é: tinha de cantar.
E cantava muito e bem. Dir-se-ia que
a costura exigia encenação
de que cantar era parte obrigatória.

Sentado ao pé dela, ficava fascinado
pelo picar obstinado da agulha sobre o pano
ao ritmo com que a Mãe impelia o pedal

— e o picar lembrava-me o afã das pombas
devorando em vaivém os grãos de milho
que meu Pai lhes atirava à porta da farmácia,
nos dias em que estava de maré.


2.

Chegou porém o dia em que as dores nas costas
impediram a Mãe de costurar (mas não de cantar).

Ora, a fábrica Husqvarna, avisadamente,
à boa maneira sueca,
previa o caso de as mães não poderem costurar
e o corpo da máquina estava preparado
para, quando removido do uso normal,
se dobrar sobre si e embutir.

(Lembrava então uma ave exausta
que recolhe a cabeça sob a asa e cisma.)

Mas, como foi feita para ser útil,
sempre servia de mesa numa precisão.

Nunca mais vi pombas a debicar grãos de milho
no picar diligente da agulha.


3.

Acho que ainda se fabricam coisas Husqvarna:
motocicletas, corta-relvas, moto-serras,
ferramentas prestimosas, praticáveis.

Mas aposto que nenhuma dessas coisas boas
tem mães a cantar nela nem sequer
lembra pombas a ninguém.


Trade Mark, Cotovia, Lisboa, 2018.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

LUÍS AMARO

1923-2018


quinta-feira, 26 de julho de 2018

MANUEL RESENDE

VOLTAR PARA CASA


Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
E seguir o rasto das árvores no chão,
Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
E as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
Pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa,
Cabisbaixa?


Poesia reunida [de Em qualquer lugar], Cotovia, Lisboa, 2018.

domingo, 15 de julho de 2018

ANTÓNIO BARAHONA

E, A PROPÓSITO DE VIAGENS


E, a propósito de viagens, recordo um serão em Sawa-Sawa (Moçambique): depois de longa caminhada pelo mato, eu deitara-me na esteira, exausto, ao lado do meu Shaykh que, à luz duma lamparina fumegante, derretia rapé sob a língua e murmurava uma oração.
Emudeceu, de súbito, satisfeito com o som do que dissera. E eu adormeci.
Acordei passados poucos minutos, com a sua voz a asseverar-me num tom deveras afirmativo:
— Só os homens que viajaram muito e correram mundo podem ser assim tão amigos e íntimos, como nós somos!
Eu nem sequer achava que tivesse viajado muito e comecei a imaginar que, com certeza, ele teria viajado muito mais.
E perguntei-lhe, curioso, após narrar-lhe as minhas vagamundagens:
— E o meu Pai, até onde foi?
— Quem? Eu? — retorquiu o meu Shaykh, surpreso. — Eu nunca saí desta aldeia!


Aos pés do Mestre, Averno, Lisboa, 2018.

domingo, 8 de julho de 2018

JORGE ROQUE

ESTUDOS LITERÁRIOS


Quando morrer vou deixar vários pares de sapatos novos, arrumados nas caixas, absolutamente por usar. Não será difícil encontrar tamanho de pé para o meu número, é aliás dos mais vulgares. Mas haverá outro problema: os sapatos são todos iguais, três ou quatro pares do mesmo modelo, variando quando muito a cor do cabedal e atacadores. Perfil neurótico, obsessivo, compulsivo, sei lá que mais o compêndio tem para mim reservado. E no entanto, bem mais simples, a razão era a dificuldade de encontrar sapatos que não me apertassem os pés.


Cão Celeste, n.º 12, Lisboa, 2018.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

ISABEL NOGUEIRA

[RECORDAMOS UMA PESSOA]

[...]

Recordamos uma pessoa enquanto recordamos a sua voz.
Com o tempo tornamo-nos menos ambiciosos. Uma expressão serve.


Marginal, Não Edições, Lisboa, 2018.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

ALBANO MARTINS

1930-2018


quarta-feira, 9 de maio de 2018

MANUEL DE FREITAS

DEDICATÓRIAS


Arrependo-me de pelo menos um terço das que fiz; outras permanecem, resistem duramente à passagem dos anos. Mas uma dedicatória é tão indelével como um abraço. Durante algum tempo, foi verdade. Escamoteá-la seria uma traição.

Prefiro apagar poemas, ou até um livro inteiro, a rasurar um nome.


Shots, Paralelo W, Lisboa, 2018.

domingo, 29 de abril de 2018

TIAGO ARAÚJO

SMASHED TO PIECES (IN THE STILL OF THE NIGHT)


no café kafka ainda é permitido o tabaco,
mas fumo apenas passivamente,
como tenho feito toda a vida.
há duas horas que espero por mim
frente a uma chávena de chá preto que começa
a perder o calor e a marca das duas mãos
que a seguraram antes. quase sem aviso,
um corpo foi substituído por outro corpo,
um pouco mais velho e lento.
entrei no café de cadeiras vermelhas, mas não voltei a sair.
terás de viver agora, mais uma vez, com a pessoa diferente
que de forma periódica vai herdando o meu nome
e os meus medos, pouco mais.
a transformação adicional coincidiu com a mudança para esta
cidade onde uma antiga torre defensiva de betão
anuncia que algo se estilhaçou no
silêncio da noite. não tenho a certeza, mas julgo que
terá sido a juventude.


Ano zero, Averno, Lisboa, 2018.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

FÁTIMA MALDONADO

SOBRE UM DUELO


Incúrias cravam ferros
no pálio da velhice.
O novilho da morte
tenta escapar ao laço
deambula na sala
à esquiva do amor
furta-se à ferra do desejo
torsos reflectem
a luz das velas
esverdinha a pele
água salobra
marcham camelos
na espinha bífida.
O ventre flecte
enquanto a lua assiste.


Às escuras (com José Amaro Dionísio, Helder Moura Pereira e Fernando Cabral Martins), 100 Cabeças, Lisboa, 2016.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

FÁBIO NEVES MARCELINO

[NUNCA FUI SENÃO UMA PONTE QUEBRADA]


Nunca fui senão uma ponte quebrada
à espera de um dia inteiro

Uma infância presa
entre muralhas
à espera de um dia novo


Canto irregular, Averno, Lisboa, 2018.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

HELDER MOURA PEREIRA

[FUI A UM BAR BEBER UM COPO]


Fui a um bar beber um copo,
por acaso era irlandês, ali ao cais
do sodré. Toda a gente cantava
de cerveja na mão, mas quando
chegou àquela parte and I found
a wife in the town I loved so well
comovi-me, engasguei-me, a caneca
escorregou-me das mãos e partiu-se
no chão. Alguém se aproximou
para me dar palmadinhas nas costas
e ainda hoje a coisa que melhor
sabe fazer, de longe, a coisa
em que é mesmo especialista,
é dar-me palmadinhas nas costas.


Às escuras (com José Amaro Dionísio, Fátima Maldonado e Fernando Cabral Martins), 100 Cabeças, Lisboa, 2016.

domingo, 28 de janeiro de 2018

JOSÉ CARLOS SOARES

[ABRES O DICIONÁRIO]


Abres o dicionário
não querendo traduzir
a sombra, apenas
navegar

na restante sabedoria
dos clássicos. Uma ou outra
mancha na camisa
acende-se

na procura dos vocábulos.
Há um desastrado voo
em tudo isto:

O que vejo
é uma foice
degolando esperas

e a noite imensa,
amarga,
nos joelhos.

Telhados de Vidro, n.º 22, Averno, Lisboa, 2017.

sábado, 27 de janeiro de 2018

JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA

MEDITAÇÕES PORNOGRÁFICAS


[...]

Algumas vozes, jovem e benévolo leitor, poderão dizer que pornografia é o assunto menos apropriado para quem, como eu, começa a medir a existência não por anos, como os novos, mas por décadas, como os velhos. Ora, em meu cansado ver, parece que se enganam. É por uma questão de tempo acumulado de experiência que deste modo e nestes termos falo, pois estou, meu amigo invisível, a entrar com paz e sem azedume nessa idade em que já se vai preferindo o calor de certas imagens, assim como o braseiro de raros livros amados, à frieza cadavérica das pessoas. E de resto, tudo isto muito em breve de pouco há-de importar finalmente, caro irmão que de passagem me lês e de quem com pena despedindo me vou apartando devagar, porque razão tinha por inteiro e em grau superlativo Camilo Pessanha ao escrever os versos: «Imagens que passais pela retina / Dos meus olhos, porque não vos fixais? / Que passais como a água cristalina / Por uma fonte para nunca mais!...».


Telhados de Vidro, n.º 22, Averno, Lisboa, 2017.

domingo, 7 de janeiro de 2018

MIGUEL MARTINS

[NÃO, NÃO SÃO OS POEMAS QUE ME INTERESSAM]


Não, não são os poemas que me interessam,
mas os poetas, os gritos noite dentro,
a casa que é alheia e se faz minha,
seja defronte ou em Paris ou mesmo
numa centúria distante e repintada.

O Alex esconjurando a impotência,
o Silva Ramos engravatando o vinho,
o Mário Alberto apostrafando as pedras
da Avenida, ou o sagaz mendigo
da Nazaré, todo onomatopeias.

Não, não há verso que luza mais afoito
do que a rosa de crepe num bordel
quando a comeste, com sal e pimenta,
e recitaste, com pompa vitoriana,
o preçário, tal fora a nossa vida.


O caçador esquimó, Fahreneit 451, Lisboa, 2017.

domingo, 31 de dezembro de 2017

JORGE ROQUE

BITOQUE COM OVO A CAVALO


A repetição de mais uma notícia frívola na televisão e o eco frívolo da notícia nas conversas à mesa. Vivemos no tempo da nulificação, disse para o ocasional conviva. Antes eram as drogas, o álcool, os êxtases, agora é a nulidade. E na conversa até então fluida, até então frívola, o súbito estorvo, tropeço. O quê, perguntou-me, erguendo os olhos do prato, nas mãos esquerda e direita os talheres suspensos em pausa. Anulação, traduzi, supondo que o problema era discursivo, já não ultrapassar-se, mas suprimir-se. Ah, respondeu-me, com um reconhecimento alheado, e retomou diligente a cirurgia ao bitoque com ovo a cavalo.


Cão Celeste, n.º 11, Lisboa, 2017.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

ALBERTO PIMENTA

SEM TÍTULO


— a vida é um modo de passar o tempo.
— e quais são os outros?
— não há.


Cão Celeste, n.º 11, Lisboa, 2017.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

EMANUEL JORGE BOTELHO

ONZE LINHAS, QUASE NADA


acabei, há pouco, de pensar.
não encontrei, em mim, nada que mereça ter um nome.

ficar entre duas aspas, disse à minha voz,
não me salva do abismo.

não há nada que segure as palavras
da vergonha,
e a queda não tem amparo
quando se cai de punhos lassos.

todos os dias morre um homem que só queria
ter um pouco mais de tempo, digo,
e escrevo a minha culpa dentro das minhas mãos.


Cão Celeste, n.º 11, Lisboa, 2017.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ANTÓNIO AMARAL TAVARES

[A LOUCURA DAS FORMIGAS]


A loucura das formigas
traz outras incertezas do medo
e da sua estirpe de fantasmas.

O desarrumo é uma nuvem incandescente
onde soa a vozearia escura da cidade
e se fecham os gestos que esbofeteiam o ar
frente à finitude dos espelhos.

Os dedos das formigas tecem
filigranas loucas nos olhos abertos
pela luz e pelo fumo.

Um corpo em saldo
para os comerciantes de gente

os canibais de sempre
que os cravam como borboletas
nas grades das suas próprias prisões.


The book of refugees, org. de Carlos Júlio, Luís Januário e Sofia Lobo, Pescada n.º 5, Coimbra, 2017.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

RUI ÂNGELO ARAÚJO

[LEMBRO-ME DE UMA COISA]

[...]

Lembro-me de uma coisa que aconteceu num dia de nevoeiro, disse eu a Leonardo, mas tenho a certeza de que não é isto que quero recordar ou esquecer em dias assim, embora tenha sido a minha primeira experiência com a morte. A avó de  umas crianças do bairro morreu quando eu estava na casa da sua família por razões que já não lembro. Houve um grito da criada, um tropel de passos no soalho e, não sei quanto tempo depois, um adulto pesaroso, creio que com algumas lágrimas, mandou-nos severamente brincar na rua. As mais velhas das crianças tiveram tempo de saber o que se passara e sentiram um alívio que não podiam compreender ao serem dispensadas de constrangimentos. O quarto da idosa ficava no corredor que dava para a rua e ao passarmos eu pude ver-lhe o rosto, o mesmo rosto de cera, enrugado e impassível, que eu conhecia de outras visitas, soerguido pela mesma almofada. Na rua o nevoeiro imperava e, entranhando-me nele como num sonho, com poucas coisas que observar e rodopiando lentamente no passeio, eu revi repetidamente aquela imagem.

[...]

Hotel do Norte, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2017.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

EDUARDA CHIOTE

ESCULTURA


Prepara apenas o caminho
de ruptura
e não me digas do escuro,
do logro,
não me digas do engano
nunca,
nunca mais me fales assim da tua
própria voz.
O seu espírito
irá cinzelar
a carne,
a aflição das aves — seu longínquo
voo.
Este suspender-se-á
na mudez
de um palhaço,
na alma de um menino
de noite.
E dizendo-lhe é assim mesmo,
nada a fazer — pois mimo apenas,
e em minha
face roída
pela boca,
o sangue
que antecedeu a respiração
dos pássaros escondidos.
Na palavra
que mais não emite
nenhum sopro.


Não me morras, & etc, Lisboa, 2004.

domingo, 8 de outubro de 2017

MANUEL DE FREITAS

BENILDE AO BALCÃO (III)


Um dia, Dona Benilde, vamos
estar todos mortos,
exactamente mortos. O dominó
calar-se-á de vez e a serradura,
essa, já não vai ser precisa
para limpar um vómito menos reticente.

Não é grande nem formosa e grata
a novidade da sentença.
Mas para já estamos vivos,
quase exactamente vivos:
o anão lowryano com a sempiterna
muleta, o velho Porto e os sapatos desiguais
que hão-de-distrair, quem sabe,
o seu olhar frio mais morto do que a morte.

E o espectro de Lowry, já lhe
falei dele. Ao canto do balcão,
embora um rato passe e se perca
no vermelho sujo do chão que nos
protege. Até mais ver, até.

Um dia, Dona Benilde,
ter havido este dia
vai ser apenas um mau poema,
o retrato desfocado de uma cidade
que se dissolve, importando
novas gentes, novos hábitos,
que não nos incluem decerto
— porque os mortos, essa gente exacta,
não sabem falar. Morreram.


Suite de pièces que l'on peut jouer seul [de Game over], Corsário-Satã, São Paulo, 2017.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

EMANUEL JORGE BOTELHO

RUA DO SACO, N.º 15 (II)


o meu vizinho predilecto
morreu na guerra.

ele gostava de mim porque me acenava
quando dizia o meu nome.

no Verão, o meu vizinho passava, todas as manhãs,
perto da minha porta.
ia a caminho do mar.

quando me disseram que ele morrera na guerra
eu ainda não pensava que podia lá morrer.

eu não me recordo do nome do meu vizinho,
e queria tanto dá-lo
à saudade que dele tenho.


Os ossos dentro da cinza, Averno, Lisboa, 2017.

domingo, 27 de agosto de 2017

RICARDO MARQUES

[O AMOR IMAGINÁRIO]


A noite, como o dia
é muito vasta

o sol pode ser
um letreiro de bar

alerta
aleatoriamente
aceso


A noite [variações], Alambique, Lisboa, 2017.

domingo, 13 de agosto de 2017

RUI PIRES CABRAL

EL PRADO


Os quadros são coisas completas
na engrenagem das salas
e nós vamos no rasto que eles deixam.

Comemos uma salada reles no buffet do Prado
e os «novos artistas de Espanha»
fumam-nos o tabaco todo com os cotovelos
fincados no mapa.

A beleza tem peso e consequência, as salas
parecem tão cheias que não sobra no espaço
um lugar para nós.

Velhas como as árvores,
as Meninas.


Passagens: Poesia, artes gráficas [de A super-realidade], org. Joana Matos Frias, Assírio & Alvim, Lisboa, 2016.

domingo, 30 de julho de 2017

RUI NUNES

[LAMPEDUSA]


Não se regressa aos mortos:
eles expulsam-nos de qualquer regresso.
Sôfregos da sua morte, flutuam
com o abandono de detritos:
em volta respira a água.
Expectante.

Barcos por entre
o arquipélago instável dos corpos
perdidos numa névoa que cheira a gasolina:
o som dos motores redesenha
o mapa dos naufrágios,
a geometria dos afogados.

[...]


Lampedusa, Paralelo W, Lisboa, 2017.

domingo, 16 de julho de 2017

JOSÉ MIGUEL SILVA

MÚSICA ANTOLÓGICA & TODOS CONTENTES


Bom é gostar daquilo que os amigos escrevem
e não ter de mentir na volta do correio.
Não há felicidade mais em conta nos tempos
que correm. Somos gratos a quem nos elucida
sobre a queda do cabelo ou a fraqueza da razão,
quem nos lembra que ainda temos tempo
de morrer acompanhados. E, só por esta vez,
esquecemos todo o nojo que sentimos
de nós próprios, escolhemos a camisa mais
lavada, escovamos o sorriso, e recebe-nos a rua
— quem diria! — com um beijo em cada face.


Últimos poemas, Averno, Lisboa, 2017.

sábado, 15 de julho de 2017

NUNES DA ROCHA

[HÁ MUITO TEMPO DA JANELA]


Há muito tempo da janela
A olhar o zodíaco
E o chuvisco sobre barco em doca seca.
Ofereço a Júpiter álcool sem retorno,
A Vénus rugas recém-chegadas
E a Marte tudo o que nunca fiz,
Por preguiça
Ou revolução inacabada.

Com língua balaustrada
Talvez o céu fosse estrada
Ou verso a verso no caminho
Para ti.
Mas queimei todos os livros,
Cobri os cabelos com a cinza
E nunca mais, lepra inútil,
Ceguei pelo feitiço da sibila.


Poemas obsoletos de um bicho imóvel, Averno, Lisboa, 2017.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

MANUEL AFONSO COSTA

O ANTEPASSADO DESCONHECIDO


o entardecer é raso
e tem a nitidez de um perigo
(a mentira entre a sopa e a fruta)
mas quando a névoa
atinge o teu olhar
a palavra que te acode aos lábios
tem a pressa de um augúrio
ele escutava apenas
a melodia das conversas
era um intruso
no coração das trevas
porém o seu rosto
era algumas vezes
um clarão na obscuridade


Memórias da casa da China e de outras visitas, Assírio & Alvim, Lisboa, 2017.