terça-feira, 23 de maio de 2017

ADÍLIA LOPES

[AS ARANHAS]


As aranhas
que vejo cá em casa
têm 8 patas

A algumas
falta uma pata
devem ter sofrido
um desastre


Bandolim, Assírio & Alvim, Lisboa, 2016.

domingo, 21 de maio de 2017

JOÃO ALMEIDA

NÃO HÁ RAZÕES


Casal um à mesa não importa o dia
Não importa a hora

Falam uma língua muda
Que sai das coisas
E as leva sem vestígio

Ela faz pequenos barcos
Com o papel da conta do jantar
Ele queria ir ao fundo do céu
Da boca se pudesse

E eu que como de tudo
Não entendo tal noite.


Hotel Zurique, Averno, Lisboa, 2017.

sábado, 29 de abril de 2017

ANTÓNIO BARAHONA

SÓ O SOM POR SI SÓ


Só o som por si só
fechou (em aberto) um poema
muito perto de Deus,
na ciência da ignorância
e ao relento.

Sacudo o pó da cabaia:
a viagem conti-
nua
sem distância
através do silêncio.


Só o som por si só, Alambique, Lisboa, 2017.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

MANUEL DE FREITAS

ESTUDOS CAMONIANOS


Estavas linda, Inês, e Camões
decerto não se importará
se eu disser que tinhas
posta no lugar a carne inteira
do meu futuro desassossego.

Aos poucos vai o corpo apodrecendo,
gentil da terra furor de que esquecemos
notícia e lastro, entretidos a morrer
por novas avenidas velhas
que em breve nos não verão mais,
apartados pela vidinha.

Mas estavas tu linda, Inês,
alheia ou talvez nem tanto
ao cego conhecido engano
que por vezes se dissipa
antes mesmo de existir.


Game over (2.ª edição, revista), Alambique, Lisboa, 2017.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A. M. PIRES CABRAL

[DIRIJO-ME A TI, GABRIEL]


Dirijo-me a ti, Gabriel, sem sequer saber se ainda vives. Mas isso é irrelevante. Porque o que eu realmente pretendo neste texto não é fingir que dialogo contigo, mas sim convocar a memória daquele que foi sem dúvida o maior e mais firme amigo que alguma vez tive: tu.

Lembras-te de como éramos aos quinze anos? De como éramos aos vinte e dois? Aos quarenta?

Lembras?

E não te dá vontade de chorar?

[...]


Singularidades, Cotovia, Lisboa, 2017.

quarta-feira, 22 de março de 2017

INÊS LOURENÇO

MORDER A LÍNGUA


A ponta do cigarro apaga-se
como o ruído dum insecto
a agonizar na água. A
noite arrefeceu apesar de ser Julho
porque o Verão a norte nunca
se despede da bruma. É tarde
e procuro um verso
que morda a própria língua.


O jogo das comparações, Companhia das Ilhas, Lajes do Pico, 2016.

sexta-feira, 17 de março de 2017

CATARINA NUNES DE ALMEIDA

O AVÔ DISSE AO GATO


O poema não é uma asa-delta com um poema
não se levanta voo com um poema somos bem capazes
de nem ir a lado nenhum.

O poema é apenas uma forma delicada
de um homem se despenhar
sobre os destroços de um outro homem.


O dom da palavra  (com desenhos de João Concha), não (edições), Lisboa, 2016.

domingo, 5 de março de 2017

JOSÉ MIGUEL SILVA

OS DADOS ESTÃO LANÇADOS — JEAN-PAUL SARTRE


Todos temos um primeiro livro, uma súbita
roldana, fornecida por acasos que desmentem
a balela do destino. Nada estava escrito
nessa noite de Dezembro, quando o Jaime
me emprestou, por entre brados de cassetes,
o rastilho dum rizoma movediço, que depressa
levaria a um sorteio de paixões encadeadas,
de Pessoa a Franz Kafka, Zaratustra, Baudelaire
e mais além, o largo mundo do enleio literário.

Cedo me fiz sócio, claro está, da biblioteca
e fez-se curta de repente a semanada, detestável
a conversa dos amigos que não liam, pavorosa
a centopeia do dever. Dum momento para o outro,
estava só e mais calado, mais inculto do que nunca.
Cada noite adiantava dez minutos o relógio
da insónia, e de manhã tinha um poema formidável
para o cesto dos papéis. Para mim, foi assim
que começou. Mais adiante explicarei como acabou.


Cão Celeste, n.º 10, Lisboa, 2016.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

PEDRO MEXIA

O CÃO DE GOYA


O cão de Goya, quem o abandonou?
Que naufrágio, cave, urbe sem gente?
Quem o pôs de cabeça humana
suplicante, que deus dos cães
o deixou assim, igual a todos?
Que bicho é este, sozinho com a impossibilidade,
um perigo que cresce sem salvação,
o grande indistinto vazio que faz medo?


Eufeme, n.º 1, edição de Sérgio Ninguém, s. l., 2016.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

EMANUEL JORGE BOTELHO

ANOTAÇÕES DE VLADIMIR ENQUANTO ESTRAGON DORMIA

para Samuel Beckett

ando à espera que me digam de que lado
virá o último pássaro a que darei sustento.

a minha borboleta já cá está há muito tempo.
chegou com o vento da noite
e trouxe-me um nome de árvore.

esperar não é pedir muito ,
nem obriga mão alguma
a dar lisura de afago
ao frio que rasga a face.

se alguém souber cantar, que não se acanhe.
eu gostava de ouvir, em voz, o que só o silêncio conhece.

esperar não é pedir muito, eu já o disse:
a solidão contenta-se com pão e água.


Cão Celeste, n.º 10, Lisboa, 2016.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

NUNO JÚDICE

NÚPCIAS


Uma inquietação de pólen suspende
o voo da abelha. Capturo-a com
os dedos da alma, e ouço-a zumbir
na minha cabeça, num limiar de
memórias que fazem parte de um verão
carregado de amêndoas e alfarroba.

Veio depois o zangão com o seu canto
áspero; e entreguei-lhe esse corpo
deitado na minha mão, queimado
pelo sol do meio-dia. Assim, entre
os declives da terra e os corais
do olhar, esqueci um presságio de azul.

Ter-me-iam confundido com um antigo
profeta, desses que pedem a esmola
de uma certeza em cada canto da
vida; ou pedir-me-iam o nome
de cada um deles para completar
os livros de frases inaudíveis como

as vozes apagadas pelo vento, como
esse murmúrio nascido num eco
de travesseiro, como o desejo gritado
no instante do naufrágio: e
em vão lhes confessei ter perdido
todos os sonhos, e nada ter para lhes dar.

Por vezes, digo, este pólen branco
que sobra nas corolas secas do inverno
serve de alimento aos famintos de amor:
e vejo-os partirem pelos campos, em busca
de imagens, deixando atrás deles
uma penumbra carregada de sentimentos.


Eufeme, n.º 1, edição de Sérgio Ninguém, s. l., 2016.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

ISABEL CRISTINA PIRES

UM POEMA ERÓTICO


Alguém me mandou escrever
um poema erótico. Alguém disse:
o sal da vida! A labareda! Escreve.
Fala-me do sexo a contra-luz, ou, se quiseres,
da macieza da boca. Da adivinha
de um dedo, das perguntas
respiradas que depois caem na pele.
Faz com que dois corpos colidam,
que os seios baloicem, que bravos
gemidos sejam o berço de outros
uivos, tudo isto para que a alma
saiba o que lá vem e consinta no ocaso.
Não fales do muco que brota cegamente,
de músculos vulcânicos, da velha cavalgada;
entrámos num rasgão do universo!
O erotismo é isso, disse o mandante do poema:
uns olhos dilatados de gato à procura da luz.


Eufeme, n.º 1, edição de Sérgio Ninguém, s. l., 2016.

domingo, 11 de dezembro de 2016

ANA PAULA INÁCIO

OLD SHOES


orgulho
me
de trazer
presas
à sola dos sapatos
areias do deserto,
Senhor

travessias bíblicas


Anónimos do século XXI, Averno, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

JORGE ROQUE

[SEMPRE VIVI NUM REDUTO]


Sempre vivi num reduto, sempre fui uma míngua de terra encostada a um muro. Mas o reduto estreita-se, o muro já mal me deixa mover nesse espaço exíguo que foi quanto me habituei a esperar da vida e era, visto de agora, um lugar feliz, uma cara onde o sorriso cabia.

[...]

Tresmalhado, Averno, Lisboa, 2016.

domingo, 30 de outubro de 2016

TERESA M. G. JARDIM

SACO DE CINZAS


Nunca estamos a sós para que eu te diga
com sinceridade: uma estante de livros não dá mais
do que um saco de cinzas
faz as contas


Telhados de Vidro, n.º 21, Lisboa, Averno, 2016.

sábado, 29 de outubro de 2016

RICARDO ÁLVARO

MORRER
[conjugação]


Eu
Tu
Ele
Nós
Vós
Eles


Telhados de Vidro, n.º 21, Averno, Lisboa, 2016.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

FOLHAS


Duas folhas secas
de plátano
entram comigo
no elevador.
Também elas
empurradas
pelo vento.


Telhados de Vidro, n.º 21, Averno, Lisboa, 2016.

domingo, 25 de setembro de 2016

JORGE ROQUE

POUCAS ARMAS


Formado na moral, isto é, contra a natureza, tens poucas armas para viver neste tempo acérrimo de liberais. Eles têm uma razão: a justiça natural consumada na lei do mais forte, a verdade inocente da selvajaria animal. Tu tens uma razão diferente: o homem está desde sempre expulso da inocência que legitima a selvajaria, a sua verdadeira natureza constrói-se contra o natural.


Cão Celeste, n.º 9, Lisboa, 2016.

sábado, 17 de setembro de 2016

ADÍLIA LOPES

SABOTAGE (HITCHCOCK, 1936)


Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são águas passadas


Z/S, Averno, Lisboa, 2016.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

TÓ CARLOS

[NO FUTEBOL, COMO NO AMOR]


No futebol, como no amor, desde que as equipas deixaram de jogar com um líbero, nunca mais encontrei o meu lugar em campo.


Axiomática namoradeira, Cronópio, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

RUI NUNES

(REGRESSO)


Tudo o que faço não passa de um preâmbulo. Mas, contra todos os preâmbulos, ou como todos os preâmbulos, estes só anunciam outros preâmbulos:
a negra palavra do abutre.
A negra paisagem do abutre


A crisálida, Relógio d'Água, Lisboa, 2016.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

ALBERTO PIMENTA

NÃO SEI


Poéticos, os deuses?
Eles não têm sangue.

Debaixo do céu inerte,
a ave que foi trespassada
e cai como um trapo
no tronco de árvore de Botticelli
tinha sangue.
Ou a pantera
do Jardin des Plantes
que incansavelmente
percorre a sua jaula
de um lado para o outro,
cerrando lentamente as pálpebras
sobre o mundo, tem sangue.

Ou as três gotas de sangue na neve
que causam o assombro
abismado de Parsifal
têm origem viva, que se torna poética
quando chegam a ele.

A poesia
são gotas, inúmeras,
secas ou ainda frescas,
sangue, sempre sangue,
o preço líquido
que a vida paga
pela fuga constante
a si mesma,
a caminho
do que não existia
antes de
ela lá ter chegado.

A poesia
quer que cheguemos,
aonde ela chegou.

– E chegamos?

Claro que não.

– E os deuses?

Esses incutem
pavor e esperança:
pavor na vida que temos,
feita do pó do universo,
esperança em chegar a eles
depois dela.

– E chegamos?

Não sei. A qual deles?


Nove fabulo, o mea voz: De novo falo, a meia voz, Pianola, Lisboa, 2016.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

SANDRA ANDRADE

FORTRESS OF SOLITUDE


deixarias a chave no hall sem nunca mais te preocupares em teres um local secreto. imagina o sono. o acordar. usaria a chave para pequenas habilidades quotidianas. sempre seguros, nunca mais alerta. o mundo em implosão lá fora. mas a gaveta verde fechada com livros de petrologia. e a vida perigosa apenas nas arestas. imagina o relógio. a balança. o sono. os caminhos já não serem estreitos.


Doppelgänger, DSO, Coimbra, 2016.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

TERESA VEIGA

[ENQUANTO ESTAVA PARADA]

[...]

Enquanto estava parada, a dois metros de distância, sem me atrever a esboçar um movimento para não o acordar, percebi que a força daquele homem, descontada a robustez física, lhe vinha de não tomar nada por certo, de viver simplesmente o dia-a-dia. Antoine dormia pesadamente, imerso no sono, com a imobilidade de um animal que hiberna ou de alguém fulminado por um tiro. Dormia com a mesma convicção que põe em tudo o que faz, com a ressalva de que nele convicção e desprendimento se equivalem e confundem. Não sofria, não pensava, não tinha sonhos, visões, arrependimentos. Simplesmente dormia.

[...]

"Antes da Revolução", Granta, n.º 7, Tinta-da-China, Lisboa, 2016.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

PAULO DA COSTA DOMINGOS

[FABRIQUEI EU TODO O VIDRO]

[...]

Fabriquei eu todo o vidro preciso nas janelas de uma casa à minha medida. Uma parte-de-casa, digo, algures, ou de alguém. Importava ficar-se ao abrigo de ventos de granizo, ter uma referência nascida do empreendimento destas mãos. O que me imiscuiu em tantas e tão perdulárias moradas. Logo em muito miúdo habituara-me a pequenos domínios como o cantinho de uma marquise solarenga, clara, onde o vão entre quatro pés do tanque em cimento me bastava para tecer cobiçosas intrigas. Jamais me atrevia a espiar o território adulto, verdadeiro campo de treino para a desconfiança e o desatino. Era como escolher na encosta íngreme da ravina o mergulho directo num casulo.

[...]


Narrativa (edição revista), Alambique, Lisboa, 2016.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

VASCO GATO

[IMPRESSO A GIZ NA ARDÓSIA]


Impresso a giz na ardósia,
um gesto de desamparo.

Vem, parece dizer a mão,
traz-me o continente
da tua estranheza.

E esse é o veneno.
E esse é o demónio que abalou
a podridão dos anjos.


Primeiro direito, Artefacto, Lisboa, 2016.

domingo, 19 de junho de 2016

NUNES DA ROCHA

ORÁCULO


do peito aberto saiu larva sem eco
caligrafia ou certeza
disse o deus

ensinar-te-ei modos de atravessar paredes
quando ninguém é perto
ou saudade

caminhar sobre as águas se o amor for ponte
sem arcos
e nela colhes líquenes de pedra

subir escadas quando a noite se cola aos pés
descalços se disseres adeus
nus quando à porta bateres

[...]

Cordoaria Nacional, Averno, Lisboa, 2016.

terça-feira, 14 de junho de 2016

MIGUEL DE CARVALHO

AUTO-RETRATO


I – Diário de navegação

Movo-me cintilante com bandarilhas solares entre arenas de pétalas mortas. Pressinto as canetas cravadas e adormecidas.

Arrasto o segredo mineral dos ventos e contemplo o verbo derramado pela raiz. Grito nas veias atrás do sangue para esculpir a cor.

Vou comigo, escapando à loucura, carregado de pólen no papel à sombra do gesto. Aprisiono os sentidos e as vigílias de quem espera a palavra surda.

Apaziguo o corpo numa ruína sedutora onde bebo a areia insone. Fecho as janelas atrás da espuma marítima.

Recordo-me sem saída.


Neste estabelecimento não há lugares sentados, Alambique, Lisboa, 2016.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

INÊS DIAS

JOAQUIM E JUDITE

Para o Manuel

Fizera toda a viagem com ele ao colo.

Queria despedir-se junto ao mar,
mas as partidas são tão imperfeitas
se o coração é uma caixa de cinzas
demasiado enferrujada para abrir
ao vento. Mesmo agora, depois de lavada
a última partícula que se lhe colara
à pele, sabia que o amor passara a ter
o peso exacto das ondas e, por isso,
nunca mais deixaria de o ouvir.

E ria, apontando-nos mais um turista
à procura das marcas do milagre
na pedra. Como se não fosse milagre
suficiente cada volta do mar: sermos
ainda reconhecidos, sete passos
dentro da noite, quando andamos
pelo mundo a povoá-lo de fantasmas.


Sítio (com Manuel de Freitas), Volta d'Mar, Nazaré, 2016.

domingo, 5 de junho de 2016

MANUEL DE FREITAS

SÍTIO DA NAZARÉ, 1979


Não tenho a certeza do nome da senhora (que talvez se chamasse Maria Augusta) a quem os meus avós alugavam casa no Sítio, mas sei que era inequivocamente cigana e que a casa ficava mesmo ao lado da praça de touros. Eu dormia no corredor, numa cama minúscula escondida por reposteiros. Os avós entretanto morreram, e a minha mãe optou pelo campismo selvagem nos pinhais em volta, antes de se render ao fascínio terapêutico da praia da Consolação.

Desconheço se devo a essas remotas experiências a tristeza que ainda hoje associo ao Sítio. Mas parece-me evidente que a minha poesia evoluiu (se é que evoluiu) num sentido exactamente contrário: passou do campismo selvagem a um longo corredor vazio onde já não espero encontrar ninguém.


Sítio (com Inês Dias), Volta d'Mar, Nazaré, 2016.