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sábado, 22 de agosto de 2020

JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

LÁ MAIOR


Também não gosto das coisas, em geral. Nem da música, nem da poesia, nem, sobretudo, da humanidade. Amo esta ou aquela música, sim, esta ou aquela pessoa, ou este poema ou povo em particular.

A minha alma foge das grandes ideias. Se sai para o infinito, é nas coisas ínfimas.


Prelúdios [com Manuel de Freitas], Alambique, Lisboa, 2020.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA

A MINHA TIA


Ficou em coma durante vários meses.
Falar com ela era falar com deus,
sem ficar à espera de resposta,
a acreditar que estava a ouvir.

Quando acordou, desfez-se
em palavras longínquas
que mal tocavam
na pele presente;

só mesmo numas partes
difusas, onde os peixes
não se distinguem da água
nem os mortos dos vivos.

Elogiei-lhe o quarto, na clínica.
Espaçoso, com uma bela vista.
Respondeu: — Se olhares pela janela,
podes ver a tua avó vestida de árvore.

Olhei. E era verdade.
O mar ia batendo o tempo.
Um renque de pinheiros
destacava-se do céu.


Tâmaras, Douda Correria, Lisboa, 2016.