sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

FERNANDO ECHEVARRÍA

O VAGAR FOI DESCENDO SOBRE AS CASAS


Tinham a luz retida no outeiro
e a tarde de Março a sustentá-las,
envoltas no esplendor do seu sossego.
Em baixo, o rio quase parava.
Era o mar a subir, mas muito lento.
Como se houvesse pelo azul das águas
um defluxo recíproco movendo
luzes poentes e paletas gastas,
onde já se destaca a de ouro velho.
E, depois, o vagar ainda baixa,
enquanto um arrepio arrisca certo
uma ríspida ruga, apenas clara
porque a secunda o céu azul. O resto
deve-se às sombras que se alongam, graças
ao contraluz desfigurando o outeiro.


Saudade: revista de poesia, n.º 12, Associação Amarante Cultural, Amarante, 2010.